quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Árvore de Natal

 Então..

Acontecem coisas estranhas no Natal, aqui em cas

De repente, me sinto quase nórdica. Tenho vontade de usar a meia que a filha trouxe do Polo Norte. Tiro meus Cds do Frank Sinatra e da Jessye Norman do limbo.

Somos invadidos por seres de outro universo.

Coelhos britânicos, anjos de palha, anjos de caroço de planta, anjos de crochê e de toda espécie de material. Bloquinhos de madeira, pequenos presépios chineses e de pedra sabão. E uma profusão de papais noéis bregas.



Medalhas do Harry Potter.

Balangandãs...

Luzinhas coloridas, estrelinhas destranbelhadas...

E sempre tem uma árvore falsa, comprada naquelas lojas...

Mas, este ano a estranheza tomou ares misteriosos.

Aconteceu o sumiço da árvore de Natal.

Sumiu. Ninguém sabe, ninguém viu.

Começou, então, uma saga em família. Cada uma tinha uma teoria. "foi embora, com aquelas sacolas"; deve estar lá em cima da estante"; " no meu quarto? não!"; "mas, não é possível!"..

Já vasculhamos os confins do apartamento. Aqueles becos perdidos, com caixas enigmáticas que contém sabe-se lá o quê!

Sumiu, amigos... sumiu!

Espero que não seja nenhuma praga de Natal, por nunca ter armado a árvore no dia certo e nunquinha desarmado, quando dezembro termina...

Então, arrumei as coisas como deu.

O penduricalho que a  Lú fez, há anos, está lá. Os anjos, aglomerados, morrendo de calor, na fonte inativa.

Na mesa, ao lado do sofá, recepcionamos Peter Rabbit.

As luzes serão acesas... o peru irá ao forno, no devido momento.

O pavê será feito.

A árvore... a árvore deve se manifestar, quando da próxima faxina épica que fizermos em 2023!

Feliz Natal!

Eu sei, eu sei... estamos no dia 08/12. E daí? 

Esse é o  barato de dezembro... 







 

 





sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Os anos dela e os meus anos...

 Uma mulher francesa me olha da orelha do livro publicado em 2022. O livro foi escrito em 2008, quando ela tinha 66 anos. Seu olhar me interpela. Você leu, Elaine? Gostou? Entendeu onde quis chegar? Eu digo a ela que escreverei a respeito. 



Eu já errei a data duas vezes hoje. Coloquei duas vezes 2023, como se daqui a um ano imaginasse que as coisas estariam da mesma maneira que estão hoje. Não é possível, mesmo que estejam.

Tomei o primeiro Puram T4  para o resto da vida, depois da retirada da tireóide que era maior do que deveria ser. 

Ao mesmo tempo, termino de ler Os anos, de Annie Ernaux. Ela escreve a respeito de uma vida que é, quase, como a minha própria. Afinal, vivemos um pouco o reflexo do que ela descreve, nós que nascemos em 1956. Amanhã completo 66 anos e é inacreditável.

Penso em todos os que gostaria que lessem esse livro. Penso também que ele é melhor apreciado, depois de uma idade certa. Qual idade? Talvez os 66 anos que precisamos viver, para poder olhar a vida com olhos de ver.  Talvez, as mulheres de 66 anos do futuro não conseguirão apreender o que ela busca preservar.  Possivelmente, será lido como algo exótico, não como identificação. Essa identificação forte, sensível que provocou em mim, hoje cedo, quando terminei de ler.

Que bom que sou uma mulher de 66 anos, que nasceu em 1956 e que pode, ainda identificar Os Anos a que ela se refere. 

Não se trata de reconhecer as referências. Não se trata de saber o curso da História, dos fatos históricos, como uma leitura superficial poderia sugerir. Trata-se de algo mais profundo. Como comentou uma pessoa na rede social, trata-se de subjetividade, história e realidade.

O distanciamento vai diminuir o impacto sensível de ler esse livro?  Uma forte certeza de que o tempo foge me diz que sim...

Foi uma leitura lenta, como eu gosto de fazer. Não acho possível ler um livro como esse em alta velocidade. A História deve ser lida com calma, para que possamos refazer o trajeto dos acontecimentos, olhando para as margens. As nossas margens. São elas que dão a medida do acontecimento. Quem era ela naquele lugar e naquele tempo.

Quem sou eu em 2022? Uma leitora que acabou de fazer uma cirurgia simbólica e real ao mesmo tempo.

" Talvez um dia isso possa acontecer com as coisas e suas denominações: ficarão separadas e ela não poderá mais nomear a realidade, haverá somente um real indizível."

O que representa a cirurgia que fiz? Para mim, uma aproximação com minha mãe, um proximidade do fim, um compromisso comigo mesma, um momento de reflexão. É muito para uma cirurgia tão simples, como descrevem as auxiliares de enfermagem que me atenderam tão bem? É muito para uma cirurgia corriqueira em um grande hospital? É muito para o médico que, atencioso, ainda assim, não tem tempo para ouvir além dos 10 minutos previstos na alta? Possivelmente...

É uma realidade indizível, para muitos, e tento nomeá-la, para que eu mesma a entenda.

É isso que Annie Ernaux me ensina..

Uma leitura dela, minha ... " um eu fora da História, constituído de momentos suspensos..."

Eu sou este eu suspenso hoje... na espera que o tempo do repouso, da dor, do espanto cirúrgico passe. 

Pode ser lentamente. Minha madaleine está ao lado da caneca de café com leite, que tenho aqui na mesa onde está o laptot.

Aliás, quando forem ler... atenção à mesa das refeições. É nela que está a melhor história das nossas vidas.