quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Dias de literatura, água e fúria.

Fomos.
Finalmente fomos
Um ano de abstinência, um ano pensando em como, quando e onde

ônibus ou carro?
perto ou longe?
a pé, pela orla ou a pé, na muvuca?

vai ter ingresso?
é caro?
vamos ?
todas?
só duas?
e aí, quem vai?

fila da prioridade?
fila comum?
comunidade
fila, just fila

Fruto estranho
Lima Barreto
A foto está on line

Finalmente, os carneiros do Marcelo Maluf

Amado Saramago
Conceição
Valéria
Diva
Edimilson
Djaimila e Scholastique
Memória, tempo, denúncia
não tem lugar nas casas
não tem importância
não tem volta

Na rua, a experiência
No abraço, a emoção
No olhar, a literatura

Risos frouxos
Almoços longos
cafés, cafés, cafés

Garrafinha com água fresca
Echarpes, meias, sapatos
bloquinhos, agendas, canetas
folhetos, anotações
cartões de visita, das pousadas, das editoras, das autoras

Sites, blogs, faces, faces, faces
What?
Whatsapp

O sol na cabeça
Os trens azuis na porta da lojinha

Dias de literatura, água e fúria

Sons e imagens... traduzem minha vida.

Até mais,








terça-feira, 18 de abril de 2017

De tudo fica um pouco

Tenho pensado nas gavetas abarrotadas de tranqueiras que tenho pela casa...
Sou uma daquelas pessoas que guarda coisas. Coisas que não servem para ninguém, a não ser para mim mesma.

E me fiz a pergunta crucial: está na hora de limpar? na hora de jogar fora? na hora de liberar espaço?

Sempre está.

Mas, será que não estarei negando para o futuro de alguém aquela sensação que sempre me deliciou de encontrar na velha bolsa de camurça preta em que minha mãe guardava coisinhas, as lembranças e sensações de um tempo em que não vivi?

A fotografia do meu pai jovem, um pedaço de uma carta de amor dos jovens João e Jandyra. Aquele santinho que distribuíram na missa de sétimo dia da tia; um cartão de Natal enviado pelo pai já ausente.

Sempre tive a sensação de descoberta e pertencimento, quando encontrava esses traços de vida de tantas pessoas diferentes. A família que já não vejo, os amigos que quase não tem mais nomes, aquela viagem que a mãe fez à praia e da fotografia em que a tia velha é uma mocinha bonita e faceira!

Me sentia feliz... isso mesmo, feliz.

Gostaria de saber que um dia, ao esbarrar com um caderno velho, em que anotações desconexas de uma aula piramidal na Letras, alguém tivesse vontade de ler um livro citado. Quem sabe, de repente, ao olharem para uma passagem de trem rumo à Santa Gertrudes, alguém dissesse: lembra como ela gostava de trem! Nossa, só falava nisso!

Gostaria de saber que dentro de um livro, repousa ainda uma flor... sem história, que vai despertar possibilidades de histórias.

E quem sabe, alguém vire a foto e leia o que está escrito lá atrás...

Algumas coisas são mesmo para serem jogadas fora... limpe, desapegue...

Mas a mensagem de desapego é repetitiva e essa repetição acaba esvaziando o conceito. Desapego tem a ver com acúmulo, não tem a ver com histórias, não tem a ver com afetos.

Algumas daquelas coisas todas, certamente, perderão totalmente o significado. Mas, e os traços que podem ser recuperados? Jogamos tudo fora, em nome de uma vida clean?

Olho de relance para minha estante aqui no escritório e vejo tantos amigos... vejo tantas histórias. Não, não consigo me desapegar deles!

Nem daquele pedaço de papel rasgado com um poema que tentei escrever ( pecado de menina boba )

E repito Drummond, que me acode com Resíduo

(...)
Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória'






É isso!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Casa vazia



Casa vazia

Gosto muito do texto de Eclesiastes 3, que fala do tempo.

“Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz (...)”

Já aviso aqui, sinto necessidade de avisar, antes de continuar, que leio a Bíblia desde do tempo da faculdade de Letras. Acredito que nenhum professor de literatura que se preza, deva deixar essa leitura de lado. Não sou religiosa, sou leitora!

Minha amiga tinha uma casa cheia. Família constituída. Mãe, pai, filhas. Tudo foi se acabando rapidamente, sem que pudéssemos fazer nada. Só resta a filha mais velha. Uma querida menina. Está lutando sua luta no dia a dia vazio. Era uma casa cheia de música, risos, projetos. Problemas que existiam eram contornados ou resolvidos, conforme a generosidade de cada um. 

Nossa vida, vamos vivendo como se nunca houvesse mudança. Acreditamos na permanência, temos esperança nela.

Um dia, a casa estará vazia. Mudanças, morte. Aquilo que conhecíamos já não responde como sempre. Voltamos à noite, e, na sala, ninguém espera para o jantar. Temos de fazer o jantar para um... 

Não se trata de escolher viver só, trata-se de perceber que tudo tem um tempo.

Agora ela está só. A irmã, muito jovem, se foi. A mãe se foi e o pai resolveu, por conta própria, deixar a casa vazia. Ela está só e chorou pela primeira vez sozinha.

Eclesiaste me ensina... para tudo há um tempo. 

Espero que o tempo da solidão seja breve. Que a casa, outra casa, se erga e seja plena de projetos, sonhos, música...

Há um tempo de derribar e tempo de edificar.

Que assim seja!





sábado, 7 de janeiro de 2017

Calceteiros



Algumas palavras me acompanham...

Sou uma amante das palavras. Não que meu vocabulário seja assim um Machado de Assis ou um Castro Alves, mas, como se diz por aí, dá pro gasto!

Essa é uma delas... calceteiro.

Ela apareceu uma vez em uma lista de exercícios do uso do pronome relativo... calma gente!

Eu usei a tal lista tantas e tantas vezes, porque acreditava piamente que meus alunos, um dia, saberiam usar onde, a qual, na qual, cujo e por aí vai...
Imagino, nos meus sonhos, que alguns deles devem ter mais consciência do coitado do pronome relativo do que os demais mortais. Sonho muito... sou sonhadora.

Acontece que em um daqueles exercícios aparecia a palavra calceteiro. Era uma dessas frases feitas para os livros de exercícios... perdida no tempo, fora de contexto, meus alunos me olhavam assustados e com pena da professora tão “fora da casinha”.
Eu insistia, ainda fazia uma gracinha, dizendo que eles deviam aproveitar a oportunidade única de aprender o significado de calceteiro, pois nunca mais haviam de ouvir aquela palavra! Nunca! E acredito que nunca mesmo um só deles ouviu o termo fora da sala de aula.

Hoje, janeiro de 2017, estou numa boa, com a mãe, passeando pelas salas maravilhosas da Pinacoteca e, de repente, vejo o quadro belíssimo – Calceteiros, de 1953, obra do artista Wellington Virgolino

Ri um pouco, lembrei um pouco da sala de aula e contei a história para a minha mãe, que não achou muito engraçada não...

Afinal... foi uma verdadeira piada interna. 

Calceteiros... alguém aí conhece um para indicar?



  • Recomendo a leitura deliciosa de O romance das palavras, uma história etimológica e semântica, de Celso Pedro Luft, organização e supervisão, de Lya Luft.