sábado, 14 de março de 2015

Caderninho de anotações



Ocidental

Onde está Susan Sontag que anotou: “Death has finally become real” naquela letra tremida?
Onde estão Capitu e as frases longas e perfeitas de Proust? 

O verso mais que perfeito de João Cabral de Melo Neto?
A luz de Van Gogh e as cores esmaecidas das gravuras japonesas?
Onde estão os anjos na biblioteca, aqueles que ouvem nossos desejos mais profundos, os anjos de Wim Wenders?

Onde estão a sinfonia de Mahler e A litlle help from my friends?
O chá de Alice... a Tereza, de  Bernini...
O haikai de Millôr, aquele em que o menininho tenta recuperar suas lágrimas?

Ou se crê no absoluto tudo e, com esperança, aguardamos o retorno de Jules e Jim, a transfiguração de D. Quixote em cavaleiro do futuro...

... ou no nada eterno, profundo, único, trágico e, então, todas as coisas se apagarão com o nosso medo da morte, nosso medo da feiura, do peso da verdade dos insensíveis...

“Que fim levaram todas as flores?”   


domingo, 8 de março de 2015

É a vez dela.



Minha mãe nunca me levou para a escola... nós, as crianças da rua Corondá, íamos sozinhas ou em grupos de amigos que moravam na mesma rua. Isso quando estudávamos no mesmo período! A escola era sempre bem pertinho - a minha ficava na "rua de trás". Nunca soubemos - a maioria de nós - como era ser levado à escola pela mãe. As mães trabalhavam muito em casa, tomando conta dos outros filhos que tinham e fora dela, em outras casas, ajudando, limpando, cuidando dos filhos das patroas. No caminho para a escola, sempre havia alguém olhando pela janela, tomando conta, acompanhando a molecada. Era um tempo solidário, feliz. Éramos pobres de Nelson Rodrigues, felizes como os de Viriato Correia!
Hoje, levo minha a mãe à escola de inglês, duas vezes por semana.
Ela chega feliz, conversa com as amigas, tem a aula, faz a lição, toma um lanche. Eu fico esperando, sentada em um banco da nave da Igreja de São Francisco de Assis, onde a professora tem uma sala de aula para a terceira idade. Aproveito, leio um pouco, penso coisas boas e recebo a energia das pessoas que passam por lá. É silencioso e me sinto muito bem...
São dois dias calmos. Uma nova rotina, boa rotina...