terça-feira, 5 de novembro de 2019

Miséria pouca é bobagem...

Mapa da desigualdade

Você vive até 80; você, sinto muito, até 60, se se segurar na fila do SUS.
Se segura, malandro!

A Dira Paes tem de dizer, chorando, que é amazônica. Chorando.
O Caio Blat fala de cor e salteado o texto de Guimarães Rosa... Diadorim, romance proibido.

Brumadinho, Mariana e o que mais mesmo? Queimada, tiro, morte.

Pacote ecônomico para você que não sabe poupar seu salário.
Pacote ecônomico para você que sabe poupar e empreender.
Pacote ecônomico para a cidadezinha qualquer que já não há.
Pacote ecônomico para a cidade grande que melhor vender seus parques.

Óleo, graxa, gosma, baba, muco, visgo...
Engole e não chora, falou?

12 milhões e meio de desempregados... faz um bico, empreenda.

O Corinthians coloca a estrela na camisa.
Ele, lá no SBT, menciona a saudação nazista.

Como se democratiza o acesso ao cinema? Transformando as salas de cinema em igrejas.
Igrejinhas...

Porteiros, porteiras, portas... veias abertas.

O campus Lagoa do Sino - que poético - doado, oferecido, dado de coração por Raduan Nassar para a gloriosa cidade de São Carlos, não serve. É caro. Melhor privatizar a Usfcar.

Mas, sempre podemos perguntar, como a moça da globo: " Quais são as opções aí, no Chile, para a final da Libertadores"!



É isso... só isso... nada mais que isso.




quarta-feira, 23 de outubro de 2019

A foto, o texto!

Acordei hoje, como tenho acordado esses dias, procurando notícias das filhas.

Estão em viagem de férias. Mas, com elas é sempre algo maior do que uma viagem de férias.

As duas iniciaram essa viagem há muito tempo, pesquisando, lendo... sentadas aqui na minha sala, conversando, brigando, entendendo que cada uma delas é um ser diferente e igual ao mesmo tempo. Realizando, então, um sonho único.

"A Ìndia fui em férias passear" dizia aquela música bobinha que tocava na rádio nos anos 60 e elas resolveram que era um sonho possível!

Hoje, logo cedo, chegou uma fotografia de Varanasi... aquela cidade que vemos nos filmes. Cremação, Rio Ganges, figuras exóticas à beira das escadas, em constante estado zen... Nada disso está na foto.

A foto mostra um edifício com tons vermelhos, volteado e abraçado por uma árvore com braços fortes, robustos. Um edifício que se deixou abraçar e sobrevive, que se alimenta daqueles troncos e nos diz que juntos continuarão a existir nos tempos que virão, além de nós.

 A legenda que a filha colocou diz:

"Este é um daqueles lugares com uma energia tão forte e palpável, que esta foto é a descrição mais precisa que eu poderia dar".


Quase no mesmo momento, leio uma postagem de uma amiga virtual, em estado de tristeza que muitos estão sentindo, por todos os motivos que sabemos.

Minha emoção uniu os dois eventos.

Sinto que a foto me impeliu a dizer... fique firme, amiga, a  Natureza está aí e estará depois de nós, abraçando as ideias, nos dizendo que sobreviveremos.

As ideias, mais que tudo, sobreviverão e sempre haverá alguém que, acreditando nelas, vai realizar algo admirável.

É isso,








terça-feira, 4 de junho de 2019

Minha mãe, a missivista social!


Nesse momento da vida, aos 89 anos, ela ainda tem o mesmo ímpeto de participação na vida social e política que sempre teve.
A cada 15 dias, vamos até a Penha, para ver a casinha e o quintal que teve de deixar, por conta da insegurança. Invadida por ladrões de botijão de gás, TVs velhas e outras quinquilharias, tivemos de tirá-la de lá.
Na volta, passamos pela Avenida 23 de Maio. Por lá, perto do acesso à Av. Paulista, um grupo de moradores de rua, usa um ponto de agua, para lavar a roupa, tomar banho. Parece uma mina d’agua. Parece um cano estourado. Sabe-se lá.
O fato é que faça frio ou faça calor, eles estão lá. Tentando manter aquele fio de dignidade humana. Um fio esgarçado, quase arrebentado, como os corpos daqueles homens e mulheres que vivem na rua.
Há alguns dias, minha mãe vem esboçando uma carta a ser enviada ao Excelentíssimo Sr.º Prefeito da Cidade de São Paulo, Sr.º Bruno Covas. Ela sabe usar os pronomes de tratamento adequados. Vem, no carro, falando em voz alta, como será a carta.
Quer pedir que ele construa um tanque ou pia, ou coloque um chuveiro para aquelas pessoas. Eu argumento que o pedido ao prefeito deveria ser outro. Que deveria pedir que essas pessoas fossem atendidas com dignidade pelo serviço social público. Que ações mais positivas poderiam ser tomadas pelo alcaide.
Mas, para ela, e eu entendo perfeitamente, a urgência é outra. Trata-se de ali, naquele lugar que eles descobriram, pelo menos ali, ela pensa, poderia haver um pouco mais de conforto, para quem tem uma vida tão miserável. Eu entendo a humanidade do pedido. O “prefeito” não lerá essa carta. Algum assessor lerá com certa atenção? Quem sabe?
Essa tem sido atitude de minha mãe, perante a própria vida e a vida social. Ela acredita em participação. Vota sempre em todas as eleições. Nunca deixou de exercer a cidadania que tanto lutou por conseguir, na vida de luta por formação, trabalho...
Olhando seus guardados, papéis velhos no meio de livros, encontro respostas às cartas enviadas, em momentos diferentes da vida.
Minha mãe, a “mosca de boi”, como ela mesma se define, nunca deixou pra lá, quando acreditava na pertinência do pedido. Foi assim a vida toda e não é diferente agora.
Uma das melhores histórias é a do pedido de transferência de setor, quando prestou concurso para trabalhar na USP. Lotada no restaurante, ficou lá uma semana e logo percebeu que não era para ela. Pediu e foi trabalhar nos apartamentos dos alunos que vinham de todas as partes do Brasil, para fazer pesquisa de Mestrado e Doutorado. Lá ficou até resolver que queria mais. Pesquisou, por conta própria, uma vaga em outro departamento e achou a vaga perfeita na Biblioteca do Instituto Oceanográfico.  Escreveu carta, elaborada por ela mesma e enviou. Fez a entrevista, diretamente com o diretor do setor, sem medo. Como ela conta, olhando diretamente nos olhos de quem, para ela é tão importante como ela mesma. Ficou 10 anos, trabalhando com alegria e leveza. Fez curso de auxiliar biblioteca, foi fazer inglês, para ler os títulos que os professores pediam. Esteve onde quis estar, porque não teve medo de requisitar o que merecia.






É isso, legal né?!

domingo, 2 de junho de 2019

Onde?


Sorrateiramente, nas salas de aula, esconde-se o conhecimento.
Entre as prateleiras das bibliotecas, no vão dos corredores, ficam nas mesas de leitura, os livros lidos.
Nos seminários abarrotados, nos auditórios barulhentos, nos laboratórios com todos aqueles odores ácidos, estão aqueles seres estranhos que resolveram pesquisar, ler, estudar horas e horas.
Longe dos corredores e salinhas de xerox, dos centro acadêmicos, mas lá também.
E durante a semana de aula e nos fins de semana, escondidos nos apartamentos divididos, compartilhados, eles estão... etéreos, enigmáticos, sonhando soluções e testando saídas diferentes.
São meninos e meninas que batalham todos os dias para encontrar aquele que está, quase sempre, escondido... o conhecimento.
Você pode encontrar essa moçada.
Você pode ver essa moçada.
Você pode, se fizer um varredura fina, observar essa moçada.
Onde?
Onde o seu próprio conhecimento os escondeu.
Quer que se revelem? É só olhar com olhos atentos. Com a mente aberta...
Eles estão lá, por nós...

É isso,

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Comida para quem precisa... memórias de uma menina gulosa!

A D.ª Augusta passava um caldeirãozinho de feijão, temperado com uma folha de louro, por cima do muro do quintal. Esse gesto está tão claramente desenhado na minha memória, assim como o perfume daquele feijão que tantas vezes nos deu de comer. Éramos duas crianças em casa, esperando a mãe voltar do serviço e o feijão do caldeirãozinho era fundamental. Que delícia, esticar o corpo, diante do muro alto, entrever a parreira cheia de cachos de uva pequena, dura, verdinha e azeda. Esticar as pernas e ver aquela figueira, a horta de couves e tomates. Sentir o cheiro gostoso que ficava depois que seu Augusto regava aquela plantação que tanto me dava prazer. O feijão vinha, às vezes, quentinho, com um pedaço de pão. Refeição completa! É um sabor que não esqueço e nunca vou esquecer. Boa lembrança da infância na Rua Corondá nº 35.

Deste mesmo endereço, eu saía toda manhã, para ir ao grupo escolar. Tomava café, comia o pão com margarina Saúde.
Um dia da semana, tinha feira na “rua de trás” e eu adorava passear pela feira, antes de descer o morrinho, para ir ao Theodomiro Emerique. Passava a mão nas roupas penduradas na barraca de roupa, gostava de sentir o cheiro molhado na barraca de cheiro verde e da barraca de bananas, com aqueles amarelos e verdes e pintas marrons - bananas tão saborosas. Os japoneses já me conheciam... tinha uma amiga japonesa, filha de donos de uma banca de bananas, que morava perto da minha casa. O depósito de bananas com seu úmido perfume de fruta me deixava muito feliz. De vez em quando, ganhava uma banana para levar de lanche.

Um dos episódios de que me lembro bem, desta passagem alegre pela feira, foi o dia em que, finalmente, ganhei um pedaço de linguiça defumada, para juntar ao meu lanche daquele dia feliz! Eu sempre passava pela barraca dos queijos e linguiças, quase sonhando, quase sendo levada por aquele perfume defumado e gostoso de coisas impossíveis de ter. O dono da barraca deve ter percebido que aquele dia, em especial, eu estava com uma vontade danada. Ele, gentilmente, corta um gomo daquela gostosura e me dá de presente. Sai dali, pulando feito um cãozinho feliz, com a cauda abanando, mostrando a todo mundo que eu tinha ganhado um premio e tanto.

Hoje, pensando neste texto que escrevo agora, imaginei que se ele deu aquele pedaço de iguaria, sem pensar, só por dar, ou se ele pensou “coitadinha, parece um cãozinho faminto”... não fez a mínima diferença. Eu estava mesmo, como um cãozinho feliz e acho que essa é uma das expressões mais perfeitas de felicidade. Escrevo isso, de coração leve...o que aliás, sempre tive em relação a essa infância, aparentemente difícil.

Na “rua de trás” ficava a venda do japonês que vendia na caderneta. Quantas vezes, ele quebrou o galho das mulheres da Rua Corondá. Quantos litros de óleo de tambor vendeu, para que fritássemos os ovos das patas e galinhas que tínhamos em casa. Que trato comercial fabuloso era aquele. No começo do mês, todas as mães iam à vendinha do japonês pagar a conta. Às vezes saldando tudo; às vezes, deixando um restinho para o mês que vem.

Quando no sábado de ver o pai, meu pai me dava uma mesadinha, a primeira coisa que fazia, na segunda feira, era passar na venda do japonês e pedir um lanche para levar à escola. Ouço, perfeitamente, a serra da faca, passando naquele filão tostadinho que acabara de chegar à venda. O filão era posto na vitrine, forrada de papel marrom, cheia de migalhas. Ele serrava o pão e eu já ficava alegre, porque, em seguida, vinham as fatias de mortadela! Sem a marca, que hoje parece fazer tanta diferença. Era uma mortadela untuosa, vermelhinha, cheirosa. E como combinava com aquele pão!

Na escola, às vezes tinha pão com carne moída ou arroz doce quentinho e com canela – ou será que era só o perfume da canela que me inebriava? Hora do recreio, hora em que víamos a diferença de classe. Lanches bem embrulhados, saindo de belas lancheiras de metal. Lanches simples, saindo de lancheiras de plástico. Sucos de laranja, laranjadas bem clarinhas e muito doces. Um docinho de sobremesa... um nada que dava água na boca.

No tempo seguinte da minha infância, no tempo da Rua Heloísa Penteado, rua de nome bonito, as lembranças de um lanche de bife à milanesa, na tarde de domingo, sempre me acompanharão. A mãe da amiga de quintal, dona do nosso cômodo e cozinha era quem preparava esse lanche divino. Ela também nos abastecia com as sobras da semana. Como cozinhava bem nossa locadora! Quantas vezes, vinham docinhos de uma festa em que não estive, quantas vezes vinham pedaços de torta do café da tarde! Tudo uma delícia!

A lata de brigadeiro na casa do meu amigo de classe na quinta série! Inesquecível! Ele era o menino mais bonito da sala e eu me lembro de quando fomos visita-lo, porque ficou acamado com hepatite. Quando tivemos permissão da visita, a mãe para nos agradar, nos ofereceu brigadeiro, saindo de uma lata enorme. Eu ficava só pensando, quem faz tanto brigadeiro só para ter em casa e oferecer aos amigos do filho deve ser uma pessoa muito boa.

Memórias gustativas, memórias afetivas.

Minha infância e adolescência de menina que viveu sempre com pouco, não são memórias tristes. São memórias de solidariedade, de compartilhamento, de amizade e percepção do mundo, por meio de uma das coisas mais importantes para a humanidade. Pão para quem tem fome. Minha fome era uma fome infantil e alegre. 

Agradeço a todos que a saciaram!

É isso!


sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

... uma tartaruga bem em cima da cabeça!


Ésquilo será atingido por uma tartaruga!

O que sabemos não tem importância alguma
Nem nossa opinião, nem nossa indignação.
O que sabemos, lemos, pensamos e acreditamos, é só um perfume que se perde.
É só um pensamento que se esquece
É só uma vaga no oceano.
Eles, seja lá quem forem, só tem interesse real naqueles que não sabem.
São os que não sabem e nem tem como saber que importam.
São eles que dão os votos necessários.
Que levam as falas mais abjetas a todos os cantos da mídia.
São eles que riem à larga, das bobagens e pagam a pizza, a conta, a esbórnia.
São eles que nunca vão entender nem de cá, nem de lá.
Não vão entender. 
E, se algum deles escapar do círculo em que estão, logo será enquadrado, laçado, “pega, mata e come...”
Ainda que alguns, unidos e cheios de esperança, consigam ver além da cerca, nada nem ninguém conseguirá impedir a matança no curral.
São forças ancestrais, forças que nunca foram de fato impedidas a não ser por curto espaço de tempo, em poucos lugares da terra.
Continuamos fazendo o de sempre... tentamos conquistar o mundo.
Continuamos fazendo o de sempre... nos encontramos em grupos, trocamos ideias. Temos esperança... é a parte que nos cabe neste latifúndio.
Se há uma seara, ela esta na arte, na literatura, cinema, música, teatro... na arte.
Interditada aos do cercado, permitida a poucos que conquistaram a duras penas o direito de fruir um pouco dela... só um pouco, nunca ela toda em sua grandeza verdadeira. Só nos sonhos... nas mídias – nova quimera - nunca ao vivo. Se ao vivo, com muita, muita luta e tempo dispendido.

“Mas, quando o destino intervém (como os atenienses gostam tanto de nos lembrar naquelas tragédias que eles vivem levando à cena com tanto dispêndio de dinheiro) não há nada a fazer. No auge da fama de um homem careca uma águia fatalmente lhe soltará uma tartaruga bem em cima da cabeça!” (in, Criação de Gore Vidal).

Para um pouco mais de Gore Vidal...


É isso, só issmo mesmo!



sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Acaçá



Não conheço a cultura baiana... acho que como muitos só sei mesmo que acarajé é bom, que o farol está ali lindo e eterno e que a musica é especialmente importante.

Amo Caymmi, Caetano...

A literatura é forte e cheirosa.

Eu vivo aqui em São Paulo e do modo que quase todos sabem o que significa. Ser paulista é ser albaroado por todas as culturas do mundo. Se somos atentos, aproveitamos muito. A maioria vai vivendo e nem se dá conta...

Então, estou ali no show da magnífica Fabiana Cozza - Dos Santos.
Show, trabalho lindo! Todos os orixás, apresentados por melodias que me seduzem.

Aquela linguagem que conheço pouco, encantatória e poderosa...
Nomes, preces, coisas, gestos...
Acaça... ela diz acaçá e me lança para um outro acaçá. O que era? Onde ouvi? Tinha ficado reverberando em mim um outro acaçá que vai voltando aos poucos. Anoto no meu caderninho... não posso esquecer da palavra. Preciso procurar nas lembranças.



Nana... Nana... Nana Caymmi solta a voz e grava em mim a palavra que agora volta, na voz tão incrível quando a de Nana!

Acaçá... palavra, som, melodia... comida de santo!
Acaçá... som que me dá de presente o conhecimento, um pouco de conhecimento.
Acaçá... palavra, tom, som, saber.
Não sou, por um momento, paulista, paulistana... sou baiana, sou do santo, sou da música.

Sou da palavra!

Acaçá... força da palavra!

É isso

acaçá

substantivo masculino
BRASILEIRISMOBRASIL
  1. 1.
    CULINÁRIA
    bolinho afro-baiano feito de farinha de arroz ou de milho, cozido em ponto de gelatina e envolvido, ainda quente, em folhas de bananeira.
  2. 2.
    CULINÁRIA
    bebida refrescante feita de fubá, arroz ou milho, fermentado em água açucarada.