Depois de aplicado o último exame é que senti as ferias realmente começando. Só faltava um pouco mais de burocracia e "tchau, tchau bambino"!
Agora era só escolher uns presentes, lutar - bravamente - com os embrulhos e "finito"!
Convido a amiga para um último passeio pela Vila Madalena. Ateliers bonitinhos, talvez um sapato descolado, umas vitrines... "um sobe e desce ladeira".
Li no jornal a respeito de um bazar... ok, vamos lá.
Pega metrô, faz baldeação, mais uma... erra a rua, para aqui; cruza a rua, para ali; cruza a rua, "o sol na cabeça". "Depois, vamos na Benedito?" Vamos... vamos...
Na andança, fico pensando que teria sido melhor ir na tal "Feira do Artesanato"... do Brasil inteiiiroo! Será? Talvez!
Onde fica a tal rua do bazar? "Melhor tomar uma água" "Moça, o bazar..." Ah! É bem ali, depois dessa ladeira. "Será que vamos ter de voltar por aqui?"
O bazar... cheio, quente... mas temos fé - a amiga não tem muito não, mas é solidária!
Entre colares feinhos, roupas desarranjadas, pratos de vidro reciclado, cerveja artesanal - amarga pra caramba - ventiladores de teto... uma coisa do outro mundo: os vendedores de queijo! Era, também, um festival de queijo!
Minha ideia do paraíso? Um festival de queijos...
Compramos o Serra da Canastra, o Chèvre tipo feta, o com kumel... degustamos tudo... o paraíso!
Sacolas cheias de queijo, rumo à Benedito! As barracas já quase desmontadas, o dia acabando, o negócio é tomar café, repartir um bolo de laranja, tentar comprar um mítica carteira de pano que sumiu do mercado (a bem da verdade, isso é uma licença mais do poética - a tal carteira é bem comum, mas como tem os bolsinhos certos, não consigo achar uma que me deixe tão feliz.).
Os queijos, nas sacolas, suando como nós!
Antes de encerrar, vamos dar uma passadinha na Cultura? Vamos! Tenho uma encomenda feita pela mãe. É sagrado! Passeio entre as bancadas das novidades literárias... acho o livro que vai de presente para a amiga da mãe... sonho, mais um pouco se compro ou não a última indicação do grupo de leitura da Andrea...
Os queijos? Dessorando...
O dia chega quase ao fim e foi legal, apesar de termos quebrado a promessa de não pisar na Paulista, durante as festas natalícias - a multidão, a multidão!
E, é claro, apesar do cheiro de queijo quente, vindo da sacola...
...o que vamos falar quando perguntarem o que fizemos no sábado? "Ah! Fomos à Vila Madalena! Demos uma passadinha na Benedito, na Cultura! E o que compraram?
"Queijo!"
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
Rua Corondá, 35.
Descendo a Rua Corondá, na Vila
Marieta.
Lado esquerdo. Casa bonita com
caquinhos de cerâmica, uma mãe, filhos – uma menina e um menino. Eu adorava
olhar, pelo muro baixo, aquele chão de caquinhos de cerâmica. Era como se as
pessoas que moravam ali fossem tão bonitas quanto aquele chão.
Lado direito. Uma casa
misteriosa. Um jardim selvagem... folhas e arbustos entrelaçados. Eu sentia
medo. Lá morava alguém que conhecia as artes misteriosas da adivinhação e dos
chás que resolvem problemas insolúveis. Uma parede descascada, verde ou qualquer
coisa parecida com musgo; água corrente misturada ao lixo da cozinha... dava
medo e curiosidade. Algumas vezes, tinha a impressão de que seria raptada por algo
que eu não controlaria... alguém, alguma coisa, uma força do outro mundo.
Perfeito para a imaginação de uma menina solitária.
Lado esquerdo. A senhora parecia
saída de um conto da Mamãe Ganso. Criava patinhos, tinha uma lagoa artificial
no fundo do quintal, vendia ovos e um licor de anis - anisete – cujo sabor
ainda sinto, quando fecho os olhos. Lenço xadrez na cabeça, avental branco,
sotaque “arastado” . Eu adorava quando
era mandada para comprar ovos naquela casa. Foi de lá que veio a pata
Frederica, cuidadosamente criada em uma gaiola. Frederica, a mãe de uma dúzia
de patos e patas violentamente assassinados em uma noite cheia de som e fúria,
por um bando de cachorros desalmados.
Lado direito. A casa da velhinha
que sustentava a família, vendendo “carça, tarco, lenço” o que precisássemos
para uma vida mais delicada e perfumada. As filhas tinham filhos aos montões e
ela sempre dizia: “aquela sem vergonha da Virma teve mais um... quer comprar
uma carça para ajudar?” E é claro que minha mãe comparava... solidariedade na
rua Corondá nem se questionava, se praticava.
Lado esquerdo. “Os intocáveis”
Uma família que tinha carros pretos, bonitos. O avô – cara de chefão – sentava-se
na varanda e ficava de olho na meninada. Ai daquele que mexesse em algum
daqueles chevrolets pretos, brilhantes, lindos, estacionados na frente da casa!
Na casa d’Os intocáveis, além dos velhos, moravam o filho, a mulher e os netos.
Para a Marcinha, fui a primeira professora... ensinei a escrever! Essa era uma
casa com muitas histórias.
Lado direito. Dona Augusta, a
portuguesa que tinha uma horta verdinha, cheirosa... usava um coque no alto da
cabeça. Uma verdadeira Eça de Queirós. Faz parte da minha memória afetiva e
olfativa o feijão cozido com folha de louro que ela passava, pelo muro, em um caldeirãozinho um pouco amassado, mas
bem areado. Dona Augusta e seu Augusto... videiras, figueiras, manjericão,
galinhas e patos no fundo do quintal.
Lado esquerdo. A portuguesa que
cortava a bola dos meninos. Na televisão dela, vi, assustada, a notícia da
morte de John Kennedy.
Lado direito. A mulher do
motorista. Dona Terezinha e seus filhos. Dona Mariazinha e as gelatinas na hora
da televizinha... Dona Doroty – a bonequinha do disco – toda empertigada,
subindo a Rua Corondá com as suas cinco meninas... todas rosas: Rosicler, Roseli,
Rosangela, Rosana, Rosimeire. Com algumas eu brincava; com outras, brigava.
Lado esquerdo. O motorista de
táxi, com chapéu, terno e gravata. Levava os doentes às emergências, as noivas
aos casamentos, os parentes ao velório. Uma sobrinha, Regina, era como uma
rainha para mim... gordinha, bonita, tinha a boneca mais bem vestida de todas,
usava uma colônia que tinha o seu nome: Regina. Logo ao lado, a casa das moças
ousadas. A Sueli – que nome de devassa -
e a Sulemar – exótica. Elas saiam à noite!!! Do muro ao lado, eu e minha
melhor amiga – Maria Luisa – espiávamos e morríamos de curiosidade.
Lá no final, ficava a chácara... meu irmão era o queridinho da dona. Ia capinar e voltava com uma cesta cheia de frutas! De lá também tenho lembranças de frescor, chuva, terra, chão batido, pés descalços.
Todos se conheciam na Rua
Corondá. Íamos juntos para a escola. Comprávamos fiado na vendinha da rua de
trás e o japonês era camarada com os possíveis contratempos daqueles tempos. Na
escola, a Dona Teresinha, cantava parabéns para as aniversariantes.
No quintal da Rua Corondá, 35,
aprendi ética, convivência social, o conceito de igualdade, o valor da
solidariedade. Convivi com pessoas, vindas de lugares diferentes, que alimentaram
a imaginação de menina sonhadora. Tive vontade de conhecer todos os lugares de
onde meus vizinhos tinham vindo. Tive vontade de entender cada jeito de viver,
de experimentar cada sabor, de ouvir cada história.
A Rua Corondá foi uma das escolas
mais importantes que frequentei.
Ainda me vejo, descendo correndo a rua, na tarde de sábado, depois do encontro com meu pai. Corria, feliz de ter ido ao cinema, ao museu, ao Jardim da Luz... durante a semana teria muito de contar para a Maria Luisa que morava quase em frente a casa da Rua Corondá, 35!
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Vila Marieta
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Raul Cortez
Eu sonhei com o Raul Cortez.
O porquê, sabe-se lá!
Ele estava lindo, de terno, pronto para entrar em cena.
Era eu que estava ao seu lado, dizendo "calma, você está preparado". "calma, o texto é lindo"...
Ele estava com aqueles lenços maravilhosos que costumava usar e que davam a ele um ar de nobre italiano...
Ele era alto e perfumado...
Ele estava quase jovem... na maturidade... um momento bonito e que pensamos ser eterno.
Ah! Freud...
Ah! Kardec...
Ah! Jesus...
Ah! Buda...
Por que sonhei com Raul Cortez?
Não, não vou questionar os desígnios do sono.
Vou guardar na memória essa beleza de noite!
Raul Cortez, eu te amo!
O porquê, sabe-se lá!
Ele estava lindo, de terno, pronto para entrar em cena.
Era eu que estava ao seu lado, dizendo "calma, você está preparado". "calma, o texto é lindo"...
Ele estava com aqueles lenços maravilhosos que costumava usar e que davam a ele um ar de nobre italiano...
Ele era alto e perfumado...
Ele estava quase jovem... na maturidade... um momento bonito e que pensamos ser eterno.
Ah! Freud...
Ah! Kardec...
Ah! Jesus...
Ah! Buda...
Por que sonhei com Raul Cortez?
Não, não vou questionar os desígnios do sono.
Vou guardar na memória essa beleza de noite!
Raul Cortez, eu te amo!
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sexta-feira, 17 de outubro de 2014
A Sofia diz que tem...
Todo bairro, quando habitado de verdade, tem...
O boteco onde só os homens entram, tomam cerveja e falam dos seus... das suas...
De vez em quando, uma mulher fura o cerco. Ela é aposentada e gosta de umas e outras.
Cumprimenta todo mundo, beba a sua gelada e ajuda no merchandising.
Aqui no meu bairro tem.
Tem a praça onde as mães se encontram às cinco horas da tarde e trocam umas ideias a respeito das crianças, enquanto tomam café, falam do preço das coisas e de como era trabalhar fora, antes... antes...
Todas tem planos para o futuro.
São jovens e, às vezes, estão enfrentando um problema que nunca imaginaram enfrentar.
Ali ao lado, na porta da escolinha, um outro grupo já está acostumado com a rotina de carregar a mochila da criança. Está acostumado com o jantar que deve ser feito até... até...
Aqui no meu bairro tem.
Tem umas velhinhas que gostam de sentar ora no banco da praça, balançando as pernas, enquanto conversam a respeito das dores do mundo; ora no banco que a farmácia, gentilmente, cedeu aos seus gratos clientes. Lá tem água fresquinha, o entra e sai das amigas e podem ver se tudo vai bem com... com...
Aqui no meu bairro tem.
Gente que passeia com os cães vira-latas, labradores, collies, poudles... gente jovem, gente velha, "a japonesa loira, a nordestina moura de..., gatinhas punks, com jeito ianque". Todos sorriem, satisfeitos com seus animais de estimação. E das varandas dos apartamentos, os bichinhos que ficam trancados, latem, chamando para uma conversinha. Eu mesma conheço uns dois que sempre me chamam. E dos jardins, dos quintais que ainda resistem, mais cães perguntam... perguntam...
Aqui no meu bairro tem.
Ontem, passeando por aqui, descobri que no meu bairro também tem a sua "Constança e Marilu". Divertidas, as duas desciam a Rua das Rosas conversando em italianês:
- Ah, mas se ela tem dinheiro, deixa gasta... olha só aquele desgraçado do motorista... quase pegou o moço... é porque a mãe dele, viu? não atravessa aqui!
- Ai, que linda... não deixa ela lambe o chão, tem tanto micróbio... que bonitinha... como ela chama? Sofia? Viu... chama Sofia...
- Cê tá me ouvindo...para com isso? Você não viu a bicicleta?
- Ih! Você é chata... vâmo ali toma um café.
Uma delas gorda, grandona, poderosa, cabelo curto, com a a bolsa no braço e gesticulando o tempo todo. A outra, com uma pantalona vermelha, turbante vermelho, bolsa florida primaveril... óculos bem grande. Toda bonitona...
Parecem bater um papo eterno.
E tem a velhinha que mora sozinha, a cabeleireira chic e a popular, o empório e o mercadinho... e muito mais... muito mais...
Ontem, pensei nisso, enquanto me divertia, vendo a Sofia parar e cheirar cada pedaço do nosso caminho...
Ela para, cheira, reconhece e vai em frente. Eu paro, olho, escuto, reconheço, memorizo...
Obrigadinha, Sofia! Graças a você, posso ver que no meu bairro tem vida!
Até...
O boteco onde só os homens entram, tomam cerveja e falam dos seus... das suas...
De vez em quando, uma mulher fura o cerco. Ela é aposentada e gosta de umas e outras.
Cumprimenta todo mundo, beba a sua gelada e ajuda no merchandising.
Aqui no meu bairro tem.
Tem a praça onde as mães se encontram às cinco horas da tarde e trocam umas ideias a respeito das crianças, enquanto tomam café, falam do preço das coisas e de como era trabalhar fora, antes... antes...
Todas tem planos para o futuro.
São jovens e, às vezes, estão enfrentando um problema que nunca imaginaram enfrentar.
Ali ao lado, na porta da escolinha, um outro grupo já está acostumado com a rotina de carregar a mochila da criança. Está acostumado com o jantar que deve ser feito até... até...
Aqui no meu bairro tem.
Tem umas velhinhas que gostam de sentar ora no banco da praça, balançando as pernas, enquanto conversam a respeito das dores do mundo; ora no banco que a farmácia, gentilmente, cedeu aos seus gratos clientes. Lá tem água fresquinha, o entra e sai das amigas e podem ver se tudo vai bem com... com...
Aqui no meu bairro tem.
Gente que passeia com os cães vira-latas, labradores, collies, poudles... gente jovem, gente velha, "a japonesa loira, a nordestina moura de..., gatinhas punks, com jeito ianque". Todos sorriem, satisfeitos com seus animais de estimação. E das varandas dos apartamentos, os bichinhos que ficam trancados, latem, chamando para uma conversinha. Eu mesma conheço uns dois que sempre me chamam. E dos jardins, dos quintais que ainda resistem, mais cães perguntam... perguntam...
Aqui no meu bairro tem.
Ontem, passeando por aqui, descobri que no meu bairro também tem a sua "Constança e Marilu". Divertidas, as duas desciam a Rua das Rosas conversando em italianês:
- Ah, mas se ela tem dinheiro, deixa gasta... olha só aquele desgraçado do motorista... quase pegou o moço... é porque a mãe dele, viu? não atravessa aqui!
- Ai, que linda... não deixa ela lambe o chão, tem tanto micróbio... que bonitinha... como ela chama? Sofia? Viu... chama Sofia...
- Cê tá me ouvindo...para com isso? Você não viu a bicicleta?
- Ih! Você é chata... vâmo ali toma um café.
Uma delas gorda, grandona, poderosa, cabelo curto, com a a bolsa no braço e gesticulando o tempo todo. A outra, com uma pantalona vermelha, turbante vermelho, bolsa florida primaveril... óculos bem grande. Toda bonitona...
Parecem bater um papo eterno.
E tem a velhinha que mora sozinha, a cabeleireira chic e a popular, o empório e o mercadinho... e muito mais... muito mais...
Ontem, pensei nisso, enquanto me divertia, vendo a Sofia parar e cheirar cada pedaço do nosso caminho...
Ela para, cheira, reconhece e vai em frente. Eu paro, olho, escuto, reconheço, memorizo...
Obrigadinha, Sofia! Graças a você, posso ver que no meu bairro tem vida!
Até...
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Bairro,
caminhada,
praça,
velhinhas e cães
Só para lembrar...
Fundo do quintal
Uma lousa de presente de aniversário
Duas bonecas descabeladas
Uma amiga vítima da experiência
Uma panela de arroz queimando
Revistas velhas
Livros velhos
Cadernos novos
Cadernos encapados primeiro com papel pardo, depois com a foto do Wilker em Bandeira 2
Lápis no estojo de madeira com tampa de fórmica que enrolava e enroscava
Lápis de duas cores e caixa com 24
Compasso e régua
Livros, livros, livros
O quintal cresceu, a lousa está enorme, as bonecas... elas e eles aparecem e desaparecem.
Eu, continuo brincando de “escolinha”
......................................................................................................................................
Um abraço carinhoso aos meus amigos professores! E são tantos, em tantos lugares diferentes...
Uma lousa de presente de aniversário
Duas bonecas descabeladas
Uma amiga vítima da experiência
Uma panela de arroz queimando
Revistas velhas
Livros velhos
Cadernos novos
Cadernos encapados primeiro com papel pardo, depois com a foto do Wilker em Bandeira 2
Lápis no estojo de madeira com tampa de fórmica que enrolava e enroscava
Lápis de duas cores e caixa com 24
Compasso e régua
Livros, livros, livros
O quintal cresceu, a lousa está enorme, as bonecas... elas e eles aparecem e desaparecem.
Eu, continuo brincando de “escolinha”
......................................................................................................................................
Um abraço carinhoso aos meus amigos professores! E são tantos, em tantos lugares diferentes...
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
O olhar de Fernanda e Giulietta.
Será que alguém já falou que elas têm o mesmo olhar?
Olhos grandes, que perguntam.
Olhos ternos e desesperados...
Olhos que viram muito e ainda acreditam no outro?
Olhar doce.
Olhar triste.
Olhar de artista que sente e fala para todos nós, por todos nós que só
sabemos olhar.
Será?
Olhares de vida intensa, de mil vidas,
Olhares de lágrimas falsas – o cristal chinês - e verdadeiras.
Olhares de paisagens refletidas... Viagens que só podemos
fazer porque esses olhares conseguem levar e buscar nossas vontades de ver.
Sempre me emociono com o olhar do artista e, quando o olhar
é como esse da Giulietta e da Fernanda...
Sinto ternura, vontade de chorar, vontade de olhar.
Rever filmes, voltar ao teatro, colar uma fotografia na
parede.
Todas as experiências que me lembrem a velha frase: “Os
olhos são a janela da alma.”
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Fernanda Montenegro,
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teatro
domingo, 7 de setembro de 2014
As joias da mamãe !
A mamãe A guardava o dinheirinho
que caia do bolso do papai A. Eles levavam uma vida regrada... pelas leis do
papai. Tinha a hora de trabalhar, a hora de almoçar, a hora de tomar banho – e
ela sempre levava o chinelo e a toalha na porta do banheiro para o papai tomar seu banhinho tranquilo, depois
de um dia intenso, lidando com aqueles cabras das fábricas que ficavam ao redor
da venda. A mamãe A aproveitava e dava aquela olhadinha básica nos bolsos do
papai, para ver se podia por a roupa para lavar! E, de vez em quando, caia um
dinheirinho do bolso do papai. Ela guardou, guardou, guardou e, sempre que era
possível, comprava um anel de ouro com pedras bonitas do mascate que vendia de
porta em porta. Ouro bom, pedra bonita. A mamãe A gostava de coisas que
brilhavam... tinha alma de artista. Um belo dia, a coisa ficou feia... as
contas não fechavam, faltou dinheiro no caixa, precisavam construir mais um
quarto. A mamãe não teve duvida nenhuma... pegou um dos anéis e vendeu para por
dinheiro em casa. E lá se foram, outras vezes, quando novamente faltou dinheiro, as joias da mamãe.
A mamãe B era uma moça fina de
boa família. Delicada e inteligente. Casou-se com o papai B. Eram felizes e
tiveram muitos filhos. O que deveria ser o final da história é só o começo. A
mamãe B levou como dote uma caixinha de joias, presentes da mãe e do pai. “Guarde,
pois joias são nosso melhor investimento.” A mãe e o pai da mamãe B eram bem velhinhos
e vinham de uma tradição antiga de dar joias, se enfeitar com elas, tira-las, de
vez em quando, da caixinha e ficar olhando aquilo tudo, para ter certeza de que
se os dias difíceis chegassem, elas estariam ali – as joias – para o que desse
e viesse. A Mamãe B e seus filhinhos eram felizes, juntamente com o laborioso
papai B. Tinham de tudo. Não lhes faltava nada. Comida, diversão e arte. E até a certeza de que o mundo é bom e a felicidade existe! E não
é que tempos difíceis chegaram? Chegaram e a mamãe B, que nunca pode usar, de verdade,
aqueles lindos anéis, aqueles colares grossos, aquelas solitários enormes,
nunca em nenhuma grande festa. Que nunca realizou o sonho de sua vida... desfilar
com as joias em uma bonita soirée... no Champs-Élysées, não teve dúvidas. Foi vendendo uma a uma,
todas aquelas belezas... todos aqueles sonhos... a segurança oferecida pelos
pais. O papai B precisou, ele precisou mesmo. E ela sorriu, com o cantinho
delicado da boquinha com batom vermelho.
A mamãe C era uma batalhadora.
Sol a sol trabalhava por ela, pelos filhinhos, pela sobrevivência. Aprendeu que
se tivesse vinte, guardaria dez. Ocasionalmente, alguém, no serviço, vendia
joias. Joias de verdade. Brilhavam e eram belas. Representavam a recompensa e a
possibilidade de agradar a si mesma e aos filhinhos. Nessa historinha não havia
papai C. A mamãe C comprou, à prestação, aneizinhos, pingentes, brinquinhos. Tudo
certificado. Ela tem tudo guardadinho, enrolado em uma meia, dentro de uma bolsa, fechado
na última gaveta da cômoda velha. Ela sempre diz que as joias da mamãe são
fruto de muito trabalho e por isso devem ser mantidas e usadas com orgulho.
A mamãe D ainda não sabe o que
fazer com as joias. De vez em quando, olha para elas, alisa, veste, pensa e
guarda-as novamente. A mamãe D comprou algumas, recebeu outras de herança,
ganhou outras tantas. Parece que os dias tumultuados ainda não chegaram de
verdade. O que será que a mamãe D fará com suas joias?
Você sabe onde estão as joias da
mamãe? Não! As joias da mamãe são da mamãe e pronto!
Historinhas assim são boas para
se pensar... nas mulheres, nas mamães e nas joias. Relações delicadas, relações
de amor e força. Mulheres joias. São joias, morou?!
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