quinta-feira, 17 de julho de 2014

Francisco!

Um dia em Assis é um dia alegre!


Andar pelas alamedas da cidade medieval, descobrir o traço romano nas edificações - o poder da igreja, tentando apagar a presença pagã - fazer o percurso das igrejas franciscanas... Poder orar no lugar onde repousa a lembrança de Francisco. Para mim, é uma experiência muito mais que histórica, de fé ou imaginária. É como se fosse a  busca de algo que permaneça no homem, algo representado pela vida de Francisco de Assis, um modo de viver que não perturbe a alma humana, que não contamine as relações. Algo ingênuo, infantil, menos cínico, mais amoroso. 

De repente, a moça se ajoelha frente à tumba daquele homem tão feinho e insignificante e abre os braços numa comoção de prece, absorta e enlevada. Está só, nem imagina as pessoas que estão ao seu redor - chineses, russos, americanos, portugueses, brasileiros - todos tirando fotos, acendendo velas de mentira. Ela pede algo importante, ela precisa e acredita na prece que faz! Eu me conecto imediatamente. Inicio minha própria oração, comovida por muitas lembranças. Agradecida por toda a minha vida. Essa vida que chega agora aos 57 anos, acompanhada das minhas filhas nessa viagem espetacular. Agradecida por tantos e tão diferentes amigos. Por todos que já passaram pelo meu caminho. Todos a quem amei e perdi. Todos os que já estão fora dele. Todos os que chegam de mansinho e me surpreendem... Choro muito, porque esse é um momento de lágrimas verdadeiras: de gratidão, de amor, de alegria por estar aqui! Uma brisa fresca me envolve. Sinto que passa por mim um vento antigo. Aproveito a sensação... de olhos fechados, penso que esse ar percorre toda a volta do túmulo dele, recolhendo e devolvendo pedidos, preces, sonhos, esperanças. Todos nós que estamos hoje aqui, recebemos o ar benfazejo das energias que já circularam por esses corredores. Das nossas preces emanam mais que desejos, mais que angústias, mais que agradecimentos. Assim como há 800 anos, daqui há mais de 800, esse será um lugar cada vez mais especial, porque nele o espírito humano, aquela alma verdadeira, pode revelar-se, independente de qualquer crença, independente da descrença. Podemos ser gente que acredita em gente. Francisco de Assis percorreu muitos caminhos para que eu pudesse sentir a felicidade desse momento. Obrigada.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Of line

Florença 03/07/2014

Desta vez, tenho escrito pouco, pois não estou conectada todos os dias. Melhor dizendo, meus amigos não podem acompanhar de tão perto as emoções que tenho sentido, já que não fiz questão de estar conectada a todo momento. Em Milão, há um trem urbano chamado "tram al passo (d'uomo)" que me lembrou como é bom diminuir a velocidade...
É assim que estou agora... ao passo, no ritmo da caderneta de viagem. É preciso adaptação, pois estamos mal acostumados com a rapidez da net e nos esquecemos que temos um ritmo nosso, humano, nosso próprio ritmo! Chegar, olhar, sentir, pensar - como se diz hoje "processar as emoções"- e depois registrar. Talvez alguma coisa se perca, uma certa euforia ou uma suposta nitidez daquilo que sentimos, mas é bom ter o tempo de sentir e saber que podemos recuperar as emoções sentidas há um dia ou há uma semana. Gostaria que quem lesse, pudesse captar a alegria, o espanto, a surpresa do momento em que, ao virar para o outro lado, descobri a verdade daquele verso de Manuel Bandeira: "— O que eu vejo é o beco". Se para ele esse recorte da paisagem significou tanto é porque soube olhar demoradamente, procurando algo mais do que uma emoção efêmera. O contexto do poema é outro - vale a pena dar uma lida: 

"Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
— O que eu vejo é o beco" 

Mas, para mim, nesses dias todos, olhando ora rapidamente, ora com menos pressa, descobrir o beco é descobrir como recuperar o ritmo - al passo d'uomo...Entrando na Galleria Borghese, fui andado devagar, querendo não encontrar, não antecipar o momento de ver, finalmente, os meus berninis prediletos. Assim, pude me dar o direito de olhar demoradamente para eles e me deixar levar pela leveza daqueles mármores... aqueles mármores com que sonhei desde a primeira vez que abri a coleção Mitologia... a coleção que nunca pude completar, a coleção que me mostrou o sublime que agora eu vejo... Agora sim, agora posso, com a ajuda das fotos - já que com as palavras é tão mais difícil - compartilhar com vocês.



segunda-feira, 5 de maio de 2014

A Sinfonia n.º 3 de Mahler e eu.



Deixei passar o tempo, só um pouco, para escrever a respeito da minha alegria. Após o concerto, abracei, apresentei, fiz o social, fui a “mãe da noiva”. Não, ela não casou. Não com um namorado, noivo, pretendente, nada disso. Ela casou há tempos com a música. Ela ouve, compra cds, dvds, partituras. Vai a um bairro afastado em Buenos Aires para encontrar um colecionador - que conheceu em uma dessas comunidades de malucos por ópera - de lembranças da grande Maria Callas. Ela começou a ter aulas faz bastante tempo em uma escola municipal. Cantava no coral a música da jabuticaba no chão! E cantava, cantava... Participou de coral do Sesc. Arrumou um professor de canto lírico que era líder de uma banda de rock! Conheceu a professora cantora do Coral Lírico Municipal que era, por sorte do destino, quase nossa vizinha. Seguiu uma interprete famosa... viajou para ver um show. Trocou informações, figurinhas, amigos. Tem um quarto que é conhecido por aqui como “a hora da zona morta” porque nele tem de tudo um pouco – maquiagem, echarpes, leques, uma estante para partituras, um teclado - tudo ali dialoga com a paixão maior – a música. Melhor dizendo com o canto. Acordo e ouço uma voz dos anos trinta, cantando alto em minha casa. Outra hora é um velho filme americano em que são personagens centrais Jeanette MacDonald e Nelson Eddy. Vem mãe, é o Réquiem, de Verdi! Vou. Também fico emocionada. A música faz parte da minha vida. Há pouco era 1974 e eu fui visitar meu pai em Brasília. Fiz visitas aos palácios, subi a torre para apreciar a paisagem e, como já havia combinado com a amiga, comprei os ingressos para a Abertura Solene Para o Ano de 1812, de Tchaikovsky, que seria apresentada no ginásio de esportes. Regência de Isaac Karabtchevsky. Não é preciso, mas faço questão de dizer que a emoção foi tão intensa, tão intensa que ainda me faz ansiosa, feliz e surpresa, quando falo a respeito. O maestro jovem, bonito, de cabelos pretos; a energia da regência, a ânsia pelo tema de La Marseillaise, pelos fabulosos tiros de canhão e todos aqueles sinos... estão tão vivos. Uma experiência musical feita para uma multidão. Hoje, se pensar muito a respeito, posso até dizer racionalmente que a encomenda feita para a comemoração daquele sete de setembro tinha uma intenção bem pouco ética ou artística. Afinal havia um governo militar e... mas, eu não posso deixar de sentir o que senti. Emoção estética. Arrebatamento. Alegria da beleza. Eu já tinha o hábito de ir a concertos e, apaixonada, sempre que o maestro Isaac Karabtchevsky regia, eu procurava estar lá. Projeto Aquarius. Orquestra Sinfônica Brasileira.
Se acontecia em São Paulo, eu estava lá. E então, ontem mesmo eu me sento na Sala São Paulo para acompanhar a Orquestra Sinfônica de Heliópolis, da qual é diretor o senhor de 80 anos, o maestro Karabtchevsky. Me sento, acompanhada de amigos, para vê-lo regendo a Sinfonia n.º 3 de Mahler, em que no coral que entra no 5º movimento está ela. A filha, aquela que canta dia e noite, aquela que ouve dia e noite infindáveis trinados das melhores e mais incríveis interpretes de ópera. Aquela que me presenteou com o Cd da Sinfonia n.º 2 – Ressurreição, de Mahler, porque é uma das que mais me emocionaram em minhas idas aos concertos. Não, eu não sou conhecedora como ela. Tenho com a música uma relação mais emocional do que de conhecimento. Mas uma coisa eu conheço bem... conheço bem a alegria que senti, conheço bem as batidas do meu coração, conheço bem a certeza de que a vida interpreta e religa as emoções. O tempo engendrou essa certeza. Somos mãe e filha ligadas pela batuta das possibilidades musicais.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Enlevo na biblioteca.



A barba do rabino – Ilan Brenman
“Um dia, na sinagoga, Ruth se encantou com a barba do rabino, branquinha e fofa como se fosse neve ou algodão-doce. A menina não se conteve - correu para perto do rabino e puxou a barba dele. Por mais que levasse bronca dos pais, sempre que ia à sinagoga, na hora da reza Ruth saía correndo e dava um puxão na barba do rabino. Até que um dia os pais decidiram não levar Ruth à sinagoga. Então aconteceu uma coisa surpreendente.” 

A amiga lê o conto judaico, A barba do rabino. Que palavras devo usar para descrever a sensação tão boa que tenho nesse momento? Corro o risco de repetir, de não conseguir expressar, de parecer menor. Vou dizer que fiquei enlevada. Isso, essa palavra é boa. Enlevada. Fiquei e fui enlevada com a sonoridade das palavras e com a história que o conto vai pouco a pouco descrevendo. A menininha que sai correndo do banco da sinagoga e puxa, sem que ninguém consiga impedir, a barba do rabino. Será algodão doce ou neve? Algodão doce macio, branquinho, saboroso. Neve, branquinha, geladinha... Eu disse sonoridade e falo de outras sensações. O que, de fato, aconteceu durante aquela leitura? A voz, as cenas, imagens que vou criando, conforme ouço, tomaram conta do meu enlevo. Dessa história, chegou, aos pouquinhos, a lembrança de outra de que gosto muito. O gigante egoísta! Foram sensações muitas parecidas... As personagens são, para mim, parecidas. Enlevada, lembro dos dois homens grandes, sérios, de pouco riso que, sem que se dessem conta, vão amolecendo o coração com a presença da criança que invade e transgride as normas do bom comportamento, ou do comportamento adequado. Enlevada, via a menininha Ruth e o menino que invadiu o jardim do gigante egoísta tomarem conta da sala e me pedirem para que a história não terminasse... queriam mais. Queriam estar ali conosco. Pensei que se tivesse o texto de Oscar Wilde em mãos, gostaria de continuar aquele momento...gostaria de ler! Assim, ficaríamos na sinagoga, esperando para ver se o rabino doente, ao rever Ruth, se recuperaria e com bom humor, reaprenderia a sorrir. Ao mesmo tempo, subiríamos nos muros que envolvem o jardim do gigante egoísta para ver, finalmente, as flores desabrocharem. As duas histórias entrelaçadas... duas crianças, dois homens sérios, dois finais felizes – quase feliz, no caso do Gigante egoísta. Tudo na voz da leitora amiga... que nos emociona, que nos enleva. Nesse momento, também pensei que a leitura, a leitura simples e sem mais nada a não ser a voz bem colocada, a limpidez do som, o rigoroso respeito ao texto é o que basta para criar a sensação de enlevo. Enlevada, lembrei como é bom ler e ouvir alguém lendo bem. Senti que as personagens agradeceram... ouvi o menininho do Gigante egoísta pedindo para ser lido. Vou pedir também... leiam em voz alta. Leiam a Barba do Rabino e o Gigante Egoísta.
                                                         gigante egoista by IronCuervo

Até mais,

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Sonhos de umas noites.



I
Todas no carro velho, voltando para casa. Ali, bem na Igreja do Carmo. O caminho seria um só. Dar a volta no Parque Dom Pedro, subir em direção a Praça da Sé e tomar rumo, pela Liberdade, até a Vila Mariana. Mas o roteiro saiu errado. Vaguei anos. Isso mesmo. Anos. Por um Parque Dom Pedro que lembrava o Inferno, de Dante. De seres escuros, vagando, pedindo, implorando. E nós três, no carro velho. Eu tinha de resolver. As meninas, minhas filhas, pediam atenção. Uma delas ainda bebê; a outra, uma menininha que precisava ir à escola. Vaguei anos. Subia e descia as ladeiras da cidade. Procurei abrigo em algumas casas. Ninguém dava bola. A mínima bola. E agora, Maria? Pedi, implorei. As pessoas tinham suas próprias preocupações. Caos. Kaos. Muito Freud em uma noite? Pode ser. Em uma das casas em que entrei, a loucura do dia não permitia nenhuma conversa ou atenção. Não, até que finalmente encontrei meu caminho, Um jogo de esconde-esconde... lembra um conto do Cortázar. Ando sonhando essas histórias quase sem fim.

II
Sonhei romântico. Romanticamente, alguém me esperava. Uma sensação maravilhosa de sentir que alguém esperava por mim. Um homem. Sentimento de proteção. Não, não essa proteção boba das relações que andam por aí. Das relações cheias de cobrança. Ele me esperava, me dava a mão. Esta minha incapacidade de descrever é o que ainda me comove. Já faz uns dias. Esperei para ver se sensação ainda permanecia viva, depois de todas as obrigações dos dias. Permaneceu. Sonhei romântico e a sensação foi tão boa que permaneceu. Cuidado, carinho. Ele não era bonito, nem especial. Alguém que talvez encontrasse na esquina de casa, numa manhã dessas, suarentas, cheias de gente apressada. Mas, ele olhou e me esperou, amparou minha presença naquele mundo de sonhos.

III
Deveriam ser três...



A imagem veio sem referência... assim são alguns sonhos.







sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

No último instante...


 Ainda não chegou, mas está perto. O último instante de tudo...

De quase tudo

Tudo o que foi ou é importante
Tudo o que teve uma história
Tudo o que teve um começo.

O sonho da noite
O sonho do dia
O sonho da vida
O sonho

Há outros instantes
Bons, divertidos, especiais

Outros sonhos
Possíveis
Queridos
Sonhados

Há outro dia
Outra noite

Outra vida?

No último instante, saberemos.

"e eu respondo, só acredito nos homens, e espero que um dia se arrependam. bastava-me isso, que um dia genuinamente se arrependessem e mudassem de conduta para que fosse possível acreditarem uns nos outros também. mais do que isso, sinto apenas angústia (...) o que sente, senhor silva. e eu repeti, angústia, sinto angústia." (a máquina de fazer espanhóis, de valter hugo mãe)



 


quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A festa de Babette.



         Acordei para ler as páginas finais do conto, A festa de Babette, de Karen Blixen. As imagens do filme dominaram a leitura. Aquelas imagens perfeitas, tão bem construídas. Uma cena mais linda do que a outra. A saída dos velhinhos, fieis do deão, após o jantar! Felizes, em estado de graça, depois do prazer, do belo, do perfeito, das memórias esquecidas, do champanhe de 1860, tudo representado naquele jantar magnífico feito pela chef de cozinha do LE CAFE ANGLAIS! Arte fluindo das mãos de um ser humano cujo único desejo está tão bem descrito no conto: “ No mundo todo, um longo lamento é emitido pelo coração do artista.. Permitam-me dar o máximo de mim!”

             É exatamente isso o que espero e o que sinto, quando vou busco arte!

            Por que faço tanta questão de ir a uma exposição, a um concerto de música clássica ou a um show de rock? Por que não me permito perder a mostra do Sebastião Salgado e fico muito contrariada se isso acontece? Que felicidade foi aquela ao me deparar com o Renoir no prédio perfeito do D’Orsay?

            Quantas vezes meu coração, meu corpo, pulsa de pura alegria ao realizar um sonho como o de entrar na igrejinha da Pampulha e finalmente ver com os próprios olhos os painéis de Portinari? Como me alegra ouvir essas mesmas experiências dos amigos, das filhas, da mãe... Minha filha repetir mais uma vez, sorrindo, que chegaram os ingressos para o concerto que ocorrerá na mesma casa onde cantou Maria Callas ! Ou compartilhar um momento especial na vida da menina de 12/13 anos (?), chorando ao ouvir aquele solo de bateria do Led Zepellin! No vídeo, na sala, ao vivo no coração que reconhece a arte e a entrega do músico. Compreendo minha angústia de tantas vezes saber que, por inúmeros motivos, não vamos, vamos perder, não aceitam o convite para ir ver aquele filme extraordinário, aquela exposição imperdível, aquela escultura perdida no museu que nunca ninguém vai ver... A perda, para mim, significa a perda da oportunidade de, aqui na vida que vamos vivendo, nos transportarmos para uma dimensão mais pura, mais leve, perfeita... para o lugar da arte. Lugar onde me reconheço melhor, onde tenho certeza absoluta... eu sou melhor! Eles, os artistas, ao expressarem o melhor de si, me dão a oportunidade de ser melhor. Me purifico, não preciso morrer para ir ao céu, não preciso crer em algo... não preciso, pois aquele momento de olhar, de ouvir, de sentir... me faz melhor. É a compreensão, a esperança, o fim da tristeza e da angústia. É o momento da fruição, da alma limpa. É o momento em que me liberto da criatura imperfeita que sou. Das minhas mesquinharias e da minha pequenez, da minha pouca vontade de ser!

            Quando estou diante de uma página literária perfeita, diante de um artista cujo único desejo é a perfeição e, assim, “tornar as pessoas felizes”, como diz o conto, sinto tanta alegria, é algo tão grande!

O que desejo nesta vida? O que desejei todos os dias até agora? A beleza. De uma peça de teatro, de uma partitura, do “Êxtase de Santa Tereza”. E desejo sempre mais. Não sendo artista, não fazendo parte desse grupo de almas especiais, eu desejo sentir na minha própria alma essa felicidade. Desejo, humildemente, ser feliz! Fugazmente, ser feliz! E confesso, mesmo que não queiram, meu desejo, quase que dolorido, é que todas as almas ao meu redor também sintam vontade de... buscar a completude!

  Até mais...