segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Messenger, e daí?



Aqueles que odeiam o saber, que foram criados numa parada de sucessos asquerosa e sem poesia, estão felizes. É isso. Enquanto a falsa religiosidade, a falsa música, a falsa caridade receberem alimentação diária dessa mídia hipócrita, não nos livraremos desse ranço. Vamos amargar Damares, Marcos Pontes, Bananinha, Zambelis e Bias sei lá o quê!

com parada de sucessos asquerosa, quero dizer  o que vocês já sabem, porque quem me lê, sabe o que eu penso 







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Amiga 1

É exatamente o que eu estava falando com ele agorinha mesmo. Aqueles que adoram o saber vivem numa bolha. Nós é que somos a bolha deste país. Eu estou espantada com o rumo que o nosso país está tomando. Estou triste de ver o fim do nosso país com futuro exemplar. Na realidade, eu estou a um passo de chorar. Não posso conversar com ninguém agora pq vou cair no choro
😢
2
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Na realidade, o mundo que imaginamos não existirá! Está no fim o pouco que foi criado no sonho do conhecimento, da arte. Agora é o tempo da mediocridade.. Ganhou. Além disso, a questão econômica e política está cada vez mais estreita e assassina. Sobrevivemos ao vírus. Não sobreviveremos à ignorância. Iremos ao teatro, ouviremos música, como se fosse uma saída, escape. É isso. Vamos precisar, cada vez mais de escapes.
👍
Amiga 2

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Vamos. Está insuportável ver esses resultados. Não paro de chorar . A Elaine

( eu mesma, tá bom ) está muito certa no que diz. A pessoa ao nosso lado vota em genocida e não vai mudar.

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    Amiga 3
Nada vai mudar, ou melhor, vai mudar pra pior. É isso Elaine.
( eu, de novo ) Vamos sobreviver nos escape

The day after... acordamos, olhando o copo mais cheio que vazio, principalmente, depois de ler algumas postagens, como a do amigo virtual e escritor :


É isso...

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segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Acordei "virada na Jiraya"

Ontem, a Paula e eu fomos ao teatro. Papa Highirte, de Vianinha. Texto fortemente político, histórico, emocionante. Senti falta de uma certa voz... uma voz mais potente, mais troante. O que foi dito, pedia um tom que não apareceu em alguns dos valentes atores da encenação. Valentes, porque, hoje em dia, para encenar Vianinha é preciso sonho e valentia. Poucos ouvem, poucos reconhecem as referências, quase ninguém tem tempo.

Aí, a amiga, ao final do espetáculo, lembra de um encontro que tivemos na Paulista, no dia em fomos assistir de Paolo Taviani, o belo Lenora, adeus.

Encontro teatral com uma travesti.

Teatral... essas personagens das ruas.

Personagem? 

Ela chegou, enquanto estávamos esperando o sinal abrir. Cumprimentou. Nós respondemos.

E aí, o diálogo se inicia.

"Nossa... vocês me responderam? Acabei de ser chamada de lixo, por uma moça. Ela me chamou de lixo, de imunda. Pediu para eu sair pra lá, que eu estava fedendo". 

Respondemos e continuamos. "Oi, toca o cotovelo, tudo bem, é seu aniversário, 34 anos, claro que compramos um sabonete".

Ela ria.

Eu lembro das sobrancelhas bem desenhadas, sinal de alguma vaidade em um tempo distante. Peruca desgrenhada ( essa palavra clichê é, talvez, a única possível ). Saia lambida, pernas finas, dentes estragados. Mais clichê para quem está há anos na rua. 

Fomos à farmácia e compramos sabonete e lenço umedecido. Pareceu uma boa ideia. Ela, perdida nos corredores, pegou um shampoo e nos pediu para comprar aquilo também. Falava em dar umas moedas, para pagar o extra,

Nunca, meu... nunca.

Pagamos e a Paula foi entregar.

Ela acenava para mim de longe. "Obrigada, linda" 

Obrigada, travesti, maluquinha, suja, fedida, mulher, vaidosa, da calçada, gente, pedinte, abandonada, traveca, menino, homem... gente. Você estava ali, para pedir que fossemos humanas. 

Acho que fomos. Sei lá. 

Enquanto escrevo, lembro de que contei a história do encontro para minha mãe e ela chorou. Chorou ao pensar na miséria e abandono. Chorei um pouco com ela. Penso nesse pouco choro e acho que é pouco, porque é tanto que não dá mais para chorar.

Então, agora cedo, nessa segunda em que, finalmente, nos lembramos do inverno, ouço uma motosserra a toda, na rua de trás, que vai sendo engolida e destruída sem nenhuma vergonha pela especulação imobiliária que não cessa, enquanto não desumanizar o que resta nos poucos bairros antigos da nossa cidade.

A motossera serra serra aquelas árvores do quintal... serra serra a memória... serra serra a possibilidade do sonho de uma cidade mais humana. Progresso burro e cruel.

E o menino/moça travesti da Paulista? 

Ela também foi serrada ao meio... "sai pra lá lixo, precisamos de espaço para os perfumadinhos" 

Gente, gentrificação, desertificação, desumanização. Falta voz.

Isso é que é sincronia na destruição. Esse é o nosso tempo.

Ela choramingou que não é lixo e ficou espantada, quando respondemos ao seu cumprimento, ouvimos sua história e compramos aquele sabonete.

Resumo da viração na Jiraya. Não perdoo o trovão que não apareceu em cena, no texto de Vianinha. Não perdoo a quem chama o outro de lixo. 

Não perdoo a motosserra..., aliás, ela também não perdoa nada. Continua troando aqui no meu ouvido e no meu coração.

Para seguir em frente, nas próximas semanas, verei o Fausto, do Zé Celso. Quem sabe, Mefistófeles de Goethe me anime a gritar mais alto.



Virado no Jiraya

Essa expressão usada quando uma pessoa está "fora de si" é uma referência a essa famosa série japonesa dos anos 80. Um dos motivos possíveis pode ser uma de suas frases famosas: "Não te perdoo", proferida antes de dar seu golpe fatal.

sábado, 16 de julho de 2022

Pontos de fuga - só um pouquinho da minha vida de estudante.

Terminei há dois dias a leitura do segundo volume da trilogia, O lugar mais sombrio, de Milton Hatoun. ( aqui uma entrevista do autor )

Ele mesmo disse que o terceiro está em elaboração, mas não pode dizer mais nada. É um escritor com um ritmo muito próprio. Não tem pressa. Passa, em suas entrevistas, a sensação de que dominou o que mais nos incomoda, o tempo e o espaço.

E é isso mesmo o que senti, lendo esse Pontos de fuga, nome do volume 2. Os tempos não são cronológicos, os espaços não são confortáveis. As personagens parecem aqueles amigos que tivemos nos anos 70 ( nós que estamos na mesma idade do autor ).

Eu, estudante da USP, passava pela Vila Madalena, de ônibus, em direção ao banco em que trabalhava meio período, logo depois do término das aulas da manhã. Sonhava em morar em uma daquelas casas, com jardins, telhados vermelhos, portões ainda de madeira. Hoje, foram transformadas em bares frequentados por mijadores de porta alheia, que vivem num frenético tempo de viver ao máximo.

Vivi anos, observando a vida daqueles moradores, a vida dos outros. Romantizava a militância política, a vida cultural nas repúblicas e pensões. Sonhava com os namoros, as experiências. Enquanto isso, lia no ônibus cheio a caminho do trabalho. Pensava no salário, que ajudaria a pagar as contas de casa e devia sobrar para os livros e alguma viagem, uma vez por ano. No cômodo e cozinha da Penha, cogitava uma mudança que nunca aconteceu. Morar na Vila Madalena, perto de faculdade, perto das mudanças importantes que desenhariam minha geração.

Vivia uma vida vicária. Nas franjas da sociedade em mudança. Atenta ao que significavam aqueles dias. As passeatas, a missa na Catedral, o show clandestino nas arcadas do Largo São Francisco, os desaparecimentos e os assassinatos. As assembléias na USP.

O que foi minha formação naqueles tempos? Foram as peças a que assisti, os livros que li, os shows que vi, os encontros que tive fortuitamente com alguns daqueles jovens ativos, interessantes, corajosos, sombrios, bonitos, musicais, coloridos. Os encontros vividos e os sonhados.

Agora, leio o romance de Milton Hatoun e me emociono. A minha vida vicária está ali também.

É um romance epistolar, como gostamos. São pequenos relatos de cartas não recebidas, encontros desencontrados, memórias de formação.

Para ler e gostar, deixem-se levar no ritmo lento, pensativo. Os capítulos são pontos de fuga. É preciso perseguir o texto. E é uma delícia.



quarta-feira, 29 de junho de 2022

A amiga Paula faz aniversário!

 

29 de junho de 2022. 70 dias com a amiga Paula, aleatórios, sem cronologia, só lembranças.

1-      Ponto de ônibus, década de 80. Vamos assumir nossos cargos na Secretaria de Educação. Vamos para Diadema. Professoras.

2-      Dentro do ônibus, Diadema - Serraria. Assalto. Medo. Caminhada pelo bairro desconhecido. Deu tudo certo.

3-      Aulas, Tonhão. A realidade da sala de aula. Aprendi com a amiga, como fazer parte da escola. Pensar politicamente a sala de aula.

4-      A compra do apartamento dela. Visita, os doces para a filha mais velha. Promessa nunca cumprida de levar uma faca de presente, para a casa que está sendo, precariamente, montada.

5-      Foto das filhas, feita por ela, em frente à Casa das Rosas. Uma lembrança bonita da infância.

6-      Separação por um tempo de que não lembro mais.

7-      Ela vai para a Prefeitura, eu para o Estadual da Penha. As lembranças se embaralham.

8-      A reaproximação...

9-      Compro apartamento novo e ela me visita, encantada com o corredor.

10-   Fotografa, corremos na Praça Rita, fazendo as pombas levantarem voo, para conseguir uma boa foto. Chovia.

11-   Conheço gente de todos os grupos de amigos da Paula. Ela agrega.

12-   Cartões postais e pôsteres que vem da primeira viagem à Europa que ela fez. A emoção de andar nas muralhas de Toledo.

13-   Não subiu a Torre Eiffel. Eu fiquei brava... Estou até hoje brava com a amiga egoísta que viajou com ela.

14-   Dont” cry for me Argentina. Eu vou e ela chega depois, para curtir e dar um apoio em hora crítica da minha vida.

15-   Vamos para Floripa. Andar na praia logo cedo. Descobrir como viver mais leve.

16-   Vamos para Paraty. A primeira Flip ninguém esquece.

17-   Vamos mais um milhão de vezes para Paraty.

18-   Puxo ela de lado, porque amarelei, quando ela gritou “fora Alckmim” na reinauguração do Solar da Marquesa.

19-   Reinauguração da Casa Mario de Andrade, fomos!

20-   Festival Internacional de Teatro, com filas homéricas de longuíssimas horas. Fomos. Ela é ponta firme nas filas que invento.

21-   Coquetel do Festival Internacional de Cinema. Fomos. Ela curte um coquetel e eu também.

22-   Estreias fenomenais, com o Matheus Nachtergaele na plateia. Vamos.

23-   Tomamos cachacinha boa com a Olívia na Flip. Rimos muito.

24-   Vinho... Ganho, dou, tomamos.

25-   Esquecimentos... Demorou um século de amizade, para eu não esquecer mais o aniversário dela. Ela desculpou todas as vezes.

26-   Até hoje não devolvi o livro do Wisnick. Ela suporta, eu brinco, nós entendemos.

27-   Passeamos por Buenos Aires atrás de um relógio de pulso e uma máquina fotográfica.

28-   Vimos Parasita e ficamos paralisadas (trocadilho bobo, ela ri)

29-   Nos emocionamos em tantas circunstâncias diferentes, que nem sei.

30-   Ela esquece coisas. Quem não esquece?

31-   Sempre tem um docinho de presente para mim. Ela me entende.

32-   Fez as fotos mais bonitas que alimentam meu ego. Já usei uma delas em apresentações, comentando a respeito de literatura. Adorei.

33-   Fotografa e dá de presente, para minhas filhas e minha mãe, lindas fotos que ficam aqui na minha sala.

34-   Em Portugal, caminhou ao meu lado e me incentivou a caminhar colina acima, para curtir o Caminho de Jacinto, que leva à Casa de Eça de Queirós.

35-   Lemos um conto especial de Cortázar só para tomar chá no Confeitaria Las Violetas.

36-   Quem topou ir à Conínbriga visitar as colinas romanas de Portugal, num bate e volta incrível? A Paula.

37-   Quem topou ir ao Fado, numa noite fria e cansada? A Paula.

38-   Quem pensa comigo a pandemia? O vírus? O isolamento? A Paula.

39-   Quem comemorou virtualmente a primeira passagem de ano da pandemia? A Paula.

40-   Ela se desafia com a tecnologia de que não gosta. Mas, enfrenta e usa, na medida do aceitável.

41-   Tenho amigos professores, fotógrafos, leitores. Conheço muitos, porque ela os apresentou.

42-   Ela sabe comprar coisas.

43-   Já me ajudou a comprar roupas mais baratas e que ficaram bacanas.

44-   Me dá presentinhos, como os potinhos para colocar café e açúcar, que uso até hoje.

45-   Fomos a Olinda. Vimos o incrível Brennand juntas. Ganhei uma foto linda em uma das muitas janelas que curtimos.

46-   Ela fica feliz em presentear.

47-   Se eu olhar nos meus guardados, vou encontrar cartinhas, cartões, palavras que ela já me escreveu.

48-   Realizou sonhos. Foi a Cuba. E eu ganhei lembranças de Cuba!

49-   É tão carinhosa com os filhos dos amigos, que todos achamos que ela é a madrinha de verdade de todos eles.

50-   Tem amigos de longuíssima data. E faz questão de respeitar e lembrar-se de todos, nos aniversários, nos momentos de crise, nos momentos felizes.

51-   Sobrinhos é um caso à parte. Todos são especiais, queridos, amados, cuidados.

52-   Os sobrinhos-netos têm um carinho ainda mais especial.

53-   Convida-me o tempo todo, para encontros, festas.

54-   Posso encontrar, como aconteceu, com os amigos da Paula, no meio de uma viagem, e tirar foto da coincidência, para mostrar para ela.

55-   Conseguimos manter, apesar dos pesares, um encontro virtual, toda semana, para comentar nossas leituras compartilhadas. O grupo é grande e, certamente, ela foi quem mais esteve presente.

56-   Ela sabe muito e parece que nem se preocupa com isso.

57-   Me ensina todas as vezes que conversamos.

58-   Viaja com as amigas, para lugares inesperados. Como, por exemplo, Areado. E sempre traz de lá um mimo.

59-   Cuida de cada um dos amigos, segundo suas características.

60-   Uma deve ser ouvida com cuidado, porque é deprimida. Com outra, toma café. Aprende a usar o computador com outra. Vai à vernissage daquela que faz arte. Fala pelo computador com a outra. Telefona, do telefone fixo, com todas.

61-   Não tem celular. Ainda não se convenceu da necessidade de tê-lo.

62-   Adora comprar bolsas. Carteirinhas, sacolas.

63-   Sempre me dá sacolas, lápis, marcadores de livros, das exposições onde não pude ir.

64-   Lembro de quase todas as exposições a que fomos juntas.

65-   Teatro, cinema, bares, restaurantes, livrarias, avenidas, caminhadas. Estivemos em quase todos os lugares juntas.

66-   Fez minha foto com alguns queridos de quem sou ou já fui fã.

67-   Viajamos para ver o Caetano em BH.

68-   Ela telefona para minha mãe.

69-   Vai comemorar o aniversário, que agora não esqueço.

70-   Tudo começou na fila do ônibus no Terminal Jabaquara, para ir à Diadema assumir nossos cargos de professora da escola pública.



 

terça-feira, 31 de maio de 2022

Tombo, Covid, Carro, Chuva, ressonância magnética...gente!

 Lembro de uma musiquinha daquele programa épico Vila Sésamo, ( só de ler os créditos, já dá uma coisa ) da década de deixa prá lá.

"Tô com raiva, muita, muita raiva... raiva."  ( clique aí, você não vai se arrepender )

Lembro porque tive raiva, raiva, muita raiva os últimos dias.

Do tombo que levei e que machucou a mão. Da Covid, que, insidiosa, chegou porque sim "todos vamos pegar" e sim, porque as pessoas são estúpidas o bastante para engolir os lugares comuns. Do carro, que eu dirijo bem mais ou menos, e vai ter de ter o espelhinho trocado, a lateral polida e tenho de lidar com isso e não gosto. Da chuva, que devemos amar, porque é prasenteira, que cai nas vidas abandonadas desse país. Raiva do exame que tive de fazer. Raiva de gente que segue ingênua ( ou não ), quando já deveria ter aprendido alguma coisa nessa vida.

Tô com raiva, muita, muita raiva...

Mas, vai passar.

Eu sou uma pessoa, acima de tudo, que sente e espera a raiva passar. Não alimento. Prefiro rir.

Rio com a leitura, com os amigos, com os parentes, com a TV, com o cachorro que passa, com a minha mãe ( que sabe rir, como ninguém, da vida que tentou passar a perna nela o tempo todo ).

A raiva é um sentimento que explode em mim, porém não sou uma raivosa violenta. Sou mais uma raivosa indignada. 

Ando indignada e com raiva.

No entanto, há momentos de riso frouxo e lágrimas emocionadas. 

É isso...

VIVER DÓI - FABIANE LANGONA