quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Que comecem as leituras!

 Bom dia, amigos! Eu leio boas histórias, desde muito cedo. Lá em casa, por obra de um destino misterioso e incrível sempre teve algo para ler. Minha mãe conta que, ao casar com meu pai, ele fez uma assinatura do antigo Clube do Livro, porque sabia que ela gostava de ler e ele também. O amor tem dessas delicadezas. O casamento durou pouco e anos de luta pela sobrevivência se aproximaram, com o pouco dinheiro somente para a comida e aluguel. Minha mãe, vocês sabem, é uma força da natureza - para usar o melhor clichê possível - fez tudo e muito mais para dar tudo certo. Os livros do Clube do Livro ficaram por lá. Eu fui achando e lendo o que descobria... José de Alencar, Machado de Assis foram quase que minhas primeiras leituras. Mas, há um dado particular nessa história, que poderia ser melancólica, mas não é. Meu pai foi embora, mas sempre nas datas especiais - principalmente natais e aniversários - ele nos presenteava. Muitas vezes, foram livros. Já contei que ganhei dicionários e outros livros dele. Aquela coleção da Melhoramentos de clássicos infantis era o que mais me atraia. Foi meu irmão quem ganhou a maioria deles, mas eu lia primeiro ( ou depois ? ). Então, conheci os classicos Peter Pan, Alice, Gulliver, Os irmãos corsos e tantos outros ainda menina. Será que foi essa a fundação da leitora que sou? Talvez. A mãe leitora só descobri, quando a vida foi ficando menos pesada. O pai leitor só via naqueles encontros breves, mas muito significativos. Da escola, veio o primeiro livro de leitura que tenho até hoje ( o meu original foi perdido, mas uma amiga de outros tempos, me presenteou com o dela ), os livros perdidos nos fundos das gavetas de casa, as revistas da vizinha, mas acima de tudo os Clássicos da Melhoramentos fizeram, sim, a leitora que sou hoje. Acho que já escrevi quase tudo isso antes, mas hoje lembrei de tudo, novamente, pensando nas próximas leituras que farei. Estão sendo lidos Cem anos de solidão, de GGM, conforme já falei dias atrás; Escalavra, de Marcelino Freire e tem um especialíssimo que ainda não comecei, mas está na cama, ao lado do meu travesseiro principal: 2666, de Roberto Bolaño, emprestado pela grande leitora Andréa Moraes. Olho para o calhamaço de Bolaño, pensando nas maravilhas que virão dele... E vamos em frente!

( 10 anos separam as fotos, que homenageiam Alice e Peter Pan, a quem dedico a inspiração desse texto sincero )




É isso! Vamos ler?

domingo, 22 de dezembro de 2024

Senhores! Que dezembro!

 Senhores! Que dezembro!

Meu dezembro, começou em novembro! Juro que foi assim!

Começou com a viagem. Cansei meus amigos de tanto postar foto da viagem. Com elas, sem elas, com o fato do dia, na estica, descabelada de ventos e chuvas, com gorro, sem gorro, em frente às atrações turísticas, em frente ao sonho de adolescente ( haja adolescência, quando se realiza um sonho desses! ). Comendo, comprando, no metrô, na rua, na fila do teatro. Cansei meus amigos de tudo e, ainda agora, canso, com as repetidas vezes que conto uma das eventualidades da viagem.

Viajei, para ver a filha mais velha. Coisas que vida trama e nem nos prepara para isso. Lá foi ela no último janeiro ( ou foi no começo de fevereiro? ) viver seu momento mais incrível! Trabalhar, viver só, conquistar o que sempre foi seu! O futuro!

Então, o traçado da vida dela se emaranhou no meu traçado de sonho. 

Viajei na companhia da filha mais nova. A que organiza o movimento! Considera e conhece os prós e contras. Contabiliza. Pesquisa. Promove. A que me fez sonhar meses antes, quando colocou o cartão postal da cidade bem em frente, no espelho, à minha vista, para que eu fosse concretizando a viagem!

Lá ficamos 18 gloriosos dias, juntas, rindo, chorando, brigando, fazendo as pazes, comprando biscoitinhos, cuidando dos pés cansados (  a retina, não! Essa não cansou nunca ).

Tudo se encaixou. Absolutamente tudo! Inclusive a presença tranquilizadora da Lia e do André, cuidando da minha mãe. 

E, na volta, teve um contratempo. Mas, também o contratempo se organizou e se desfez, sem deixar sequelas. 

A amiga perguntou: o quê não deu certo? Ela gosta de saber de tudo. Amiga: sei lá, não lembro mais. Não lembro da mala quebrada; do metrô na hora da saída de trabalho ( quando, na verdade, deveríamos estar numa carruagem, puxadas por alazões brancos com aquelas penas vermelhas no topo da cabeça ), das caminhadas intermináveis e randômicas que causaram a bolha e a dor no pé mais federal que já senti; de todas as vezes que o roteiro teve de ser refeito, dos ventos fortes que fecharam as estações do metrô, do capucchino em pé e da bronca afável do barista. Sei lá, amiga! Deus tudo certo!

E aí, o dezembro estendido, que havia começado em novembro, realmente chega! Comemorei o aniversário de maneira piramidal! ( quem ainda não entende o uso desse adjetivo de que gosto tanto, procure um filme bem bonitinho chamado: Anjos rebeldes, com uma Rosalind Russel adorável! )

Voltamos e imediatamente o dezembro foi ficando mais fenomenal. Fui ao show do Caetano e da Bethânia. Duas vezes! Duas vezes! 

É que quando comprei os ingressos lá pelo meado do ano, dei uma bobeira. Na compra, que deveria ser para três, comprei para duas e quando voltei ao site, para a terceira compra, é claro que não havia mais ingresso. Só me restava rezar para uma data extra, que saiu! E aí, eu comprei. Por que tanto drama?

Well... As duas amigas que me acompanharam eram especiais. A primeira, nunca tinha ido a um show em estádio. O que considero uma falha que deve ser corrigida. Corrigimos! Ela curtiu. Teve de relevar alguns contras.  E eu, por minha vez, fiz a companha dos prós, com todo empenho, para que tudo fosse perfeito. E foi! Aproveitamos muito. O repertório, as vozes, a multidão viva e dançante. Todo o clima do estádio.

E a terceira pessoa? Bom, ela é mais que uma amiga. É uma querida que está na minha vida há muito tempo. Temos boas histórias, somos família, somos sobreviventes do caos. Do caos que a família pode ser. E temos muito o que compartilhar. Desde aquele dia no Theatro Municipal em que batalhamos uma entrada da para ver o Baryshnikov, até o show do Queen, num estádio sem celulares, com as alegres luzinhas de isqueiros. Como foi nosso show? Imaginem. Cantamos, dançamos, choramos, rimos, fizemos fotos que não ficaram boas, é claro! Tudo como tem de ser, quando estamos em "estado de graça".

E agora já é quase véspera de Natal. Ela chegou, com a minha arvorezinha, cheia de quinquilharias, do jeito que eu gosto; com os anjos que demoraram um pouco para serem encontrados - isso é quase uma tradição, para mim -; com almoço da família, as idas ao mercado, a angústia própria da época. Uma angústia que é como uma nostalgia do que foi e do que não foi.

E hoje, me bateu aquela vontade de contar como foi tudo isso. Como está sendo tudo isso.

Só falta o Auto da Compadecida, com a camiseta que comprei há meses!

Só sei que foi assim...










quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Amor

 "Que pode uma criatura senão,

entre criaturas, amar?

amar e esquecer, amar e malamar,

amar, desamar, amar?" (CDA)

Ontem, fui ao show de lançamento do songbook de Dori Caymmi. Ao ouvir duas de suas canções de amor na voz de Sergio Santos, cantor apaixonado, me vi apaixonada.

Naquele momento único, me apaixonei - perdidamente - pela voz, pela palavra, pela melodia e chorei.

Sentindo cada nota se transformando em lágrima, comecei a pensar em mim mesma. Na ausência de um amor companheiro, de um amor devotado, de um amor físico e espiritualmente identificado e sentido.

Tento entender o porquê. Foram as muitas noites e dias de leitura? Foram os museus e suas belezas infinitas, retratando os amores reais e fictícios? Foram os poemas que li, naquela quartinho dos fundos da casa da amiga, quando era uma adolescente? Foram os amigos de cabelos longos que conheci nos anos 70? Foram os desconhecidos que diziam coisas lindas, nos encontros inesperados, durante as caminhadas, as viagens, as salas de aula? Foram as canções, cantadas em inglês que nunca entendi de verdade? Foram as flores perfumadas, ao longo da ferrovia?

Onde aprendi que o amor é de uma tal maneira estonteante, que, definitivo, marca a vida e dá sentido a ela?

Todos temos de ter uma amor assim, como o cantado por Sergio Santos? 

Então, minhas lágrimas foram de saudades do que não existiu. "Do que não tem conserto e nunca tera". 

Já estou aqui, num momento da vida em que as coisas todas estão desenhadas pela realidade. Não tem poesia que a transforme.

Não amei, como nas minhas amadas canções.
Não encontrei o amor, como nos meus romances preferidos. Nem sofri como neles.
Não escreverei, ou beberei, ou arrancarei meus cabelos, como nos filmes italianos.
Não deixarei um livro de memórias, para que saibam como amei e fui amada.
Não receberei uma carta de amor.
Não rasgarei uma carta de amor.

Mas, continuo vivenciando espetáculos da arte, imaginados pelo amor. Dori Caymmi, Chico Cesar e Geraldo Azevedo, Matheus Natchergaele, Tchekhov e todos que vocês me veem comentando, compartilhando...

Ah, Drummond, "o que pode uma criatura"?

É isso, amigos! Hoje acordei, toda trabalhada na Emma Bovary.

Caspar David Friedrich - O andarilho acima do mar de nevoeiro



segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Brega e chique

 

Um dia eu comprei um vestido feio. Era daqueles feio mesmo, como aqueles que ficam na primeira barraca da feira. A barraca de roupas ( será que ainda resistem? ), com calçolonas de malha de que vizinha velha velha gosta, com as calças de lycra, os pares de meia marrom, os panos de prato feinhos, as chinelas falsas, tamancos... Não comprei na barraca, mas parecia. E usei! Essa semana, lembrei disso. Como eu fiz isso? Por quê? Lembro de mim, atravessando a rua, com chinelinho e vestida com aquele vestido feio. Ventava e o vestido tinha fendas até o meio da canela. Nunca gostei de fendas. Nem em vestido, nem em calças, como essas que estão na moda. Que estranha é a vida, quando você lembra de que já usou um vestido feio. Mas, não é só isso. Eu fui a um show de sertanejos brega, numa churrascaria em São Bernardo do Campo. Isso mesmo. Nesse dia comi polenta frita e ao lado havia uma família barulhenta. Conseguiram ver a cena? Fui  a uma excursão de ônibus, para Peruíbe. Comi lanche ruim, com refrigerante. Fiquei picada de mosquitos. Tive um LP do Wanderlei Cardoso e ouvia muito.  Não é estranho?

Parece uma outra vida.                                  

Hoje, eu não faria nada disso, não compraria um vestido feio.

Eu ouço música velha, daquelas que ninguém mais lembra. Adoro uma feira. Se pintar, compro no brechó. 

Hoje me sinto mais equilibrada, com minha calça preta e minhas camisetas. Vou a uns shows históricos. Passei tinta colorida numas mechas do cabelo branco e achei o máximo.

Diga-me o que vestes, o que ouves, o que comes, o cabelo que tens e te direi quem és!

Será mesmo?



 

 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

02/01/2023 - A Rampa


 

Rosangela sorri para o Presidente.

Jucimara, a de semblante mais ensimesmado, pensa o quê?  No momento? Na vida e no dia a dia? Uma mulher sempre pensa.

Raoni sobe, com o olhar de quem já sabe tudo. Sereno. Forte. Emocionante.

O Presidente cuida da Resistência. Olha, para ter a certeza de que sabe para onde ela vai. Resgatada, ela, a vira-lata simbólica, está à frente de todos. Olha para um outro lugar...



Flavio, o artesão, tem metade do rosto escondido pela imagem do presidente. Ele usa óculos. A vista gasta na artesania da vida?

Mais atrás, outro brasileiro de óculos, sobe a rampa num momento nunca antes imaginado. Sua mulher está com ele. Eu queria ser a mosquinha que ouve os pensamentos dele. Tenho algumas hispóteses, mas será que são sustentáveis?

Francisco, o menino de Itaquera, é identificado como "o garoto Francisco". Mas, veja bem. Ele olha para Resistência, tem muito ainda que resistir. Tem sonhos. Sabe que também pode ser presidente. Ele é muito mais que "o garoto Francisco".

Ivan Baron, sorri, de mãos dadas com "o garoto Francisco", usa bengala, um terno com história. Sorri, de óculos, para a Rosangela ou para o Presidente? Um sorriso aberto, valente, feliz, bonito, confiante, forte. 

Wesley é metalúrgico. Significa. Tem o semblante sério como o de Jucimara. Olha para frente. 

Murilo Jesus está atrás do funcionário do cerimonial. Até quando? Não vemos seu olhar. Haverá um momento, logo depois, que saberemos quem é ele. Mas, nessa foto não. Está atrás. Sei que ele é professor formado em Letras. Identificação e esperança é o que nos move. Me identifico com o professor. Tenho esperança de que ele seja visto.

Todos sobem a Rampa. Uso maiúscula, porque foi uma Rampa especial. Única. 

A História terá de lidar com essa Rampa.

Vamos ter de analisar, conversar sobre, replicar a ideia, perpetuar.

A emoção de ver essa foto será sentida todas as vezes em que ela se apresentar.

Emoção e reflexão.

Falta alguém na foto... e isso diz muito a respeito da foto.

Faltou Aline Sousa. Quase não nos damos conta.

Ela irá colocar a faixa presidencial em Lula.

Aline Sousa, subiu de mãos dadas com o artesão. Catadora de materias recicláveis, 33 anos, liderança do Movimento Nacional de Catadoras. Presente!





quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Árvore de Natal

 Então..

Acontecem coisas estranhas no Natal, aqui em cas

De repente, me sinto quase nórdica. Tenho vontade de usar a meia que a filha trouxe do Polo Norte. Tiro meus Cds do Frank Sinatra e da Jessye Norman do limbo.

Somos invadidos por seres de outro universo.

Coelhos britânicos, anjos de palha, anjos de caroço de planta, anjos de crochê e de toda espécie de material. Bloquinhos de madeira, pequenos presépios chineses e de pedra sabão. E uma profusão de papais noéis bregas.



Medalhas do Harry Potter.

Balangandãs...

Luzinhas coloridas, estrelinhas destranbelhadas...

E sempre tem uma árvore falsa, comprada naquelas lojas...

Mas, este ano a estranheza tomou ares misteriosos.

Aconteceu o sumiço da árvore de Natal.

Sumiu. Ninguém sabe, ninguém viu.

Começou, então, uma saga em família. Cada uma tinha uma teoria. "foi embora, com aquelas sacolas"; deve estar lá em cima da estante"; " no meu quarto? não!"; "mas, não é possível!"..

Já vasculhamos os confins do apartamento. Aqueles becos perdidos, com caixas enigmáticas que contém sabe-se lá o quê!

Sumiu, amigos... sumiu!

Espero que não seja nenhuma praga de Natal, por nunca ter armado a árvore no dia certo e nunquinha desarmado, quando dezembro termina...

Então, arrumei as coisas como deu.

O penduricalho que a  Lú fez, há anos, está lá. Os anjos, aglomerados, morrendo de calor, na fonte inativa.

Na mesa, ao lado do sofá, recepcionamos Peter Rabbit.

As luzes serão acesas... o peru irá ao forno, no devido momento.

O pavê será feito.

A árvore... a árvore deve se manifestar, quando da próxima faxina épica que fizermos em 2023!

Feliz Natal!

Eu sei, eu sei... estamos no dia 08/12. E daí? 

Esse é o  barato de dezembro... 







 

 





sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Os anos dela e os meus anos...

 Uma mulher francesa me olha da orelha do livro publicado em 2022. O livro foi escrito em 2008, quando ela tinha 66 anos. Seu olhar me interpela. Você leu, Elaine? Gostou? Entendeu onde quis chegar? Eu digo a ela que escreverei a respeito. 



Eu já errei a data duas vezes hoje. Coloquei duas vezes 2023, como se daqui a um ano imaginasse que as coisas estariam da mesma maneira que estão hoje. Não é possível, mesmo que estejam.

Tomei o primeiro Puram T4  para o resto da vida, depois da retirada da tireóide que era maior do que deveria ser. 

Ao mesmo tempo, termino de ler Os anos, de Annie Ernaux. Ela escreve a respeito de uma vida que é, quase, como a minha própria. Afinal, vivemos um pouco o reflexo do que ela descreve, nós que nascemos em 1956. Amanhã completo 66 anos e é inacreditável.

Penso em todos os que gostaria que lessem esse livro. Penso também que ele é melhor apreciado, depois de uma idade certa. Qual idade? Talvez os 66 anos que precisamos viver, para poder olhar a vida com olhos de ver.  Talvez, as mulheres de 66 anos do futuro não conseguirão apreender o que ela busca preservar.  Possivelmente, será lido como algo exótico, não como identificação. Essa identificação forte, sensível que provocou em mim, hoje cedo, quando terminei de ler.

Que bom que sou uma mulher de 66 anos, que nasceu em 1956 e que pode, ainda identificar Os Anos a que ela se refere. 

Não se trata de reconhecer as referências. Não se trata de saber o curso da História, dos fatos históricos, como uma leitura superficial poderia sugerir. Trata-se de algo mais profundo. Como comentou uma pessoa na rede social, trata-se de subjetividade, história e realidade.

O distanciamento vai diminuir o impacto sensível de ler esse livro?  Uma forte certeza de que o tempo foge me diz que sim...

Foi uma leitura lenta, como eu gosto de fazer. Não acho possível ler um livro como esse em alta velocidade. A História deve ser lida com calma, para que possamos refazer o trajeto dos acontecimentos, olhando para as margens. As nossas margens. São elas que dão a medida do acontecimento. Quem era ela naquele lugar e naquele tempo.

Quem sou eu em 2022? Uma leitora que acabou de fazer uma cirurgia simbólica e real ao mesmo tempo.

" Talvez um dia isso possa acontecer com as coisas e suas denominações: ficarão separadas e ela não poderá mais nomear a realidade, haverá somente um real indizível."

O que representa a cirurgia que fiz? Para mim, uma aproximação com minha mãe, um proximidade do fim, um compromisso comigo mesma, um momento de reflexão. É muito para uma cirurgia tão simples, como descrevem as auxiliares de enfermagem que me atenderam tão bem? É muito para uma cirurgia corriqueira em um grande hospital? É muito para o médico que, atencioso, ainda assim, não tem tempo para ouvir além dos 10 minutos previstos na alta? Possivelmente...

É uma realidade indizível, para muitos, e tento nomeá-la, para que eu mesma a entenda.

É isso que Annie Ernaux me ensina..

Uma leitura dela, minha ... " um eu fora da História, constituído de momentos suspensos..."

Eu sou este eu suspenso hoje... na espera que o tempo do repouso, da dor, do espanto cirúrgico passe. 

Pode ser lentamente. Minha madaleine está ao lado da caneca de café com leite, que tenho aqui na mesa onde está o laptot.

Aliás, quando forem ler... atenção à mesa das refeições. É nela que está a melhor história das nossas vidas.