segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Companheiras

Às vezes, não estamos juntas nas viagens, mas lembramos uma das outras o tempo todo. A Paula fez a sua viagem dos sonhos há uns bons anos. Em uma das visitas, esteve na Espanha. Andou pelos muros das cidades medievais. Viveu o sonho de sentir que sim, era tudo verdade aquilo que leu e estudou tanto, no seu tempo da faculdade de História. Aliás, é uma sensação deliciosa, ver a casa de um dos seus autores prediletos, aquele lugar onde esteve, sentou e tomou o café; o lugar onde ocorreu aquele fato que intrigou, emocionou e nunca mais você esqueceu. É claro que, na Itália, deu com uma passeata contra a Guerra do Golfo! É claro que não perdeu a oportunidade de se manifestar... ela é assim! E voltou com um presente... um cartaz que comprou para ajudar na caixa da campanha. Companheira, sempre.

Ganhei uma sacola com o cartaz do filme "E o vento levou" - até ouço a trilha sonora, cada vez que que pego minha sacola e saio por aí, louca para que as pessoas digam: "que linda, onde você comprou?" E aí, posso dizer: ganhei! Minha amiga foi ao sul do Estados Unidos e lembrou de mim! Prosa...

Veio uma casinha de pedra lá de Paraty, e mais uma de Conservatória e outra e mais outra... ganho as casinhas, porque agora me deu vontade de colecionar. E minhas companheiras sabem disso!

E a bolsa para livros que chegou de Giverny?  Ser professora, com referências é outra coisa, não é?

Tenho um lenço italiano que me deram há... muitos, muitos anos. Já nem encontro mais a companheira que trouxe o presente. Uso, de vez em quando. Saudades.

E é claro que também ganhei uma miniatura da torre Eiffel!  "Estive em Paris e lembrei-me de você!" Por que não? Adoro... está aqui no escritório, bem em frente da fotografia da torre feita pela Thaís.

São todas importantes... essas lembranças! Lápis, marcadores de páginas, cartões postais, potes de doces...




Ficam por aqui, e quando topo com elas, lembro das amigas... compartilhando sonhos, livros, viagens!




quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Brasília, Recife, Maceió.

Eu queria conhecer Recife, de Manuel Bandeira.

 "Cai cai balão
Cai cai balão
Na Rua do Sabão!
O que custou arranjar aquele balãozinho de papel!
Quem fez foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito."


Liguei para meu pai em Brasília e pedi uma ajuda. "Dá para falar com o Sr. Lins, pai da sua vizinha?" Deu. Fui primeiro a Brasília, fiquei uns dias com meu pai, depois fui a Recife. Arrumei também um jeito de ficar uns dias em Maceió. O Sr. Lins lembrava João Cabral de Melo Neto, magrinho, óculos, camisa branca de manga curta, calça social cinza velhinha. Eu chegava bem indicada pela filha - a vizinha de meu pai do conjunto habitacional dos funcionários da gráfica do Senado Federal. Gente boa, gostosa para conversar, acolhedores. Fiquei em um bairro, perto de um colégio judaico tradicional. A outra filha era professora lá. Foi a primeira vez que ouvi a palavra "morá" que achei tão linda. Era um apartamento pequeno, todo arrumadinho, cheiroso. Apartamento de velhos, com passado bonito. Uma penumbra delicada. Colcha bonita na cama em que dormi, vaso de flor na sala, cortina de cor sóbria, toalha branca de rendinha na hora do café da manha. Acordei quatro dias com o perfume do café da manhã de Recife. Cuscus doce, leite quente, queijo, manteiga saborosa... inesquecível. O Sr. Lins , é claro, gostava de conversar... contou como foi, na infância, esperar a passagem da Coluna Prestes na cidade em que ele vivia. O clima de aventura que o fato trouxe para a vida dele. Quis seguir a Coluna, o pai não deixou. Contou de uma cheia que ilhou o casal durante dias no apartamento, porque a água subiu até o 3º andar. Quase não deixava a mulher contar suas próprias histórias. Será que é por isso, que só lembro o nome dele? Que pena. Também não lembro o nome da filha, a morá. Mas, lembro dela, chegando na hora do almoço, contando algumas passagens do dia na escola. Não havia nem uma sombra de cansaço ou de desilusão! E então fui atrás da Recife do poeta! Rua do Sol, rio Capibaribe, as pontes, a festa da pitomba - delícia de fruta. Andei muito pelas ruas da cidade. O prédio da Confeitaria Glória, onde foi assassinado João Pessoa me deixou impressionada. Andei por algumas praias. Que lindo aquele Recife, sem preocupação! Conheci a fantástica árvore de Fruta-pão, pois havia uma bem em frente ao apartamento.Antes, aquela árvore era só uma imagem na figurinha em um álbum que meu irmão colecionava. Guardei a lembrança da senhora espantada, dizendo que "agora as mulheres andam de sacolas nas mãos, é mais pratico", como se fosse uma grande mudança de comportamento. Senhoras educadas não carregavam sacolas! E fiquei conhecendo o  significado da palavra "inverno", chuva da tarde! Eu, a paulista que sabia, naqueles anos, o que era um inverno de verdade. Conheci Recife? Um pouco, um sonho de Recife. Algumas pessoas bem especiais. Elas fizeram meu Recife. Depois, tomei um ônibus e fui até Maceió. Pela praia, vendo aquelas casinhas e coqueiros inacreditáveis...sem máquina digital para registar tudo, só a memória. Uns meses depois, recebi pelas mãos do meu pai um bilhetinho do Sr. Lins, agradecendo a "filha tão educadinha que o sr. me pediu para hospedar", carinhoso. Sinto saudades de pessoas carinhosas. Imagino o casal agora " dormindo profundamente" como diria o poeta.




 Maceió? Outro dia, falo dela!


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Uma das minhas...

Em 2009, quis conhecer Belo Horizonte. Olhando com olhos de todo dia, é uma cidade feia, cheia de problemas, suja, um trânsito caótico. Que ideia, visitar uma outra versão de São Paulo! Mas os meus olhos nunca chegam a uma cidade, olhando do mesmo jeito. Chegam prontos para encontrar as referências que ficam das minhas leituras. Vi muita coisa bonita: o show da Maria Alcina no parque inaugurado 1897 - Parque Municipal Américo Renê Giannetti - , assisti a um concerto de música clássica; caminhei pela Pampulha, onde conversei com uma cobradora de ônibus que tinha o sonho de ser motorista; visitei uma exposição maravilhosa no Museu Inaná de Paula de quem recebo, até hoje, os convites para as próximas exposições. O plano maior era visitar Itabira, claro. Na Itabira de Drummond, ironia, fui a uma festa em que havia uma exposição a respeito de Fernando Sabino. Comprei um livro: "Cartas na mesa". Aquele nosso interesse especial em literatura epistolar, né Andréa? Acabei lendo, durante a viagem até Vitória - Ferrovia Vale do Rio Doce - outra aventura mineira. De volta, havia a cidade para ser explorada. Afinal, é a cidade dos meninos Fernando, Hélio, Otto e Paulo. Do Encontro Marcado, leitura importante na minha formação. Era preciso procurar a praça do encontro, percorrer as ruas descritas nas cartas trocadas, durante todo a vida, pelos quatro amigos. Pelo menos, as de Belo Horizonte. Tomei um café no Café Nice  e lá que fui andar pela cidade. Caminhei muito até chegar à Praça da Liberdade. Fui sentindo o clima dos anos 40 nas contruções, no rosto dos velhos que ainda caminham pela cidade... Vi tantas coisas bonitas e ao chegar lá, não importava mais se era lá era mesmo a praça do encontro, o que importava era o clima do encontro. Estava acontecendo um festa com grupos tradicionais da cidade, gente com histórias no rosto e gente nova aprendendo com os velhos. Visitei alguns edificios históricos da praça. tirei fotos. 




 Eu tive meu encontro com a cidade.



sábado, 25 de agosto de 2012

Amigos viajantes II

Os pátios floridos que a Ana viu na Espanha e chegar a Melilla, próximo ao Marrocos; Gene Kelly ao lado da Andréa nas Olímpiadas nos EUA e ouvir a voz da Marisa Monte de dentro de um banheiro - onde mesmo, Amesterdã? - ; a praia gelada em um vilarejo em Portugal que fez a Paula sentir um dos piores frios da sua vida e a visita ao casal de imigrantes portugueses que morava em Paris; as vilas de onde saíram as famílias da Luciana Penna e da Olívia Frizo, naquela viagem inesquecível para Portugal; a Lili Cordélia na África, ensinando meninos e meninas e ensinando em Londres e a Mariana Aldrigui, visitando a Rússia.  Meus amigos viajantes me dão tanto, quando contam suas histórias! O cotidiano fica mais bonito, leve, esperançoso! Reúno todas elas, com minhas leituras e sonhos e vou a todos esses lugares. Minhas filhas em Nova York, Boston, Versailles, Argentina, Uruguai, Egito. Minha mãe no safári no Sul da África e na foto em pleno Cabo da Boa Esperança! A Isabel Lajedo vivendo pela América Latina, em pleno exercício da sua bondade e sabedoria. Quanto me dão... Meu irmão no cassino em Las Vegas, finalmente realizando o sonho de ser um dos Rat Pack. Relatos de sonhos realizados... de projetos construídos, às vezes, por tanto tempo; às vezes, inesperadamente, como um instante de felicidade. Ao ouvir essas histórias, muito do que não faz sentido na vida, desaparece... porque, afinal, somos assim, gente que busca. No outro, na palavra, na imagem perpetuada concretamente ou sugerida na memória, viajamos.




Qualquer dias desses, conto uma das minhas próprias histórias... 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Cinema, música e literatura.

Conversando com a Ana Mª Villela Martinez, logo na saída da sessão na VI Mostra de Cinema Silencioso, relembrei a sorte que tenho e tive. Professores que me apresentaram autores e possibilidades de leitura e experiências culturais que formaram a leitora que sou hoje, a amante de cinema que sempre está disposta a mais uma descoberta... às vezes, sinto até um sensação amarga de impotência quando, vencida por circunstâncias, não posso ou não consigo ir mais uma vez ao teatro, ficar mais um pouco na fila da exposição, batalhar para um ingresso que será distribído uma hora antes...

Na sala de aula, com as amigas curiosas, na companhia de minha mãe, sempre tão curiosa como eu... tive momentos ótimos! Houve um julho especial em que não perdemos quase nenhuma récita no Municipal. Voltávamos para casa de madrugada e, ainda no ônibus, combinávamos o programa do dia seguinte. Sem nenhum cansaço, Dª Jandyra e eu, depois de um dia de aula e trabalho, lá estávamos na porta do Theatro Municipal, felizes para mais uma noite de balet, coral ou acompanhando a orquestra que, regida por Eleazar de Carvalho, encantava a todos, especialmente, minha mãe!
As estréias cinematográficas foram incríveis! Cabaret, O Poderoso Chefão e tantas outras. E a primeira vez do magnífico Gabinete do Dr. Caligari, na Rua Augusta com a Araci! 

As viagens que fiz a partir da adolescência, sempre foram inspiradas pelas experiências culturais que tive. Nunca viajei só para ver a paisagem ou para uma foto a mais de recordação. Vinham da leitura, do cinema, da fotografia, da música... assim minhas recordações estão sempre em rede.
Confesso que isso, às vezes, é um problema...mas...

                         

Desses momentos sou feita!

domingo, 5 de agosto de 2012

Módulo II 4 de agosto – sáb – 10h às 12h

Módulo II
4 de agosto – sáb – 10h às 12h
Clarice Lispector (Ucrânia, Haia 1925 – Brasil, Rio de Janeiro, RJ 1977)Palestra por Yudith RosenbaumConto: Amor
na obra: LISPECTOR, Clarice. Laços de família: contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2009. (e outras edições)disponível em: BMA / Circulante e Coleção Geral; outras bibliotecas do Sistema Municipal de Bibliotecas


Leitura leva a mais leitura... nenhuma novidade. Mas, como é gostoso aproveitar esses encontros que a leitura proporciona. Quantas vezes já falei a respeito de Clarice Lispector durante minha vida de professora? Tantas... No entanto, ela é sempre única. A cada leitura, não são as sensações repetidas, nem as lembranças que mais me surpreendem, são as novas e únicas redes com que o texto de Clarice consegue me envolver. Sábado, na Biblioteca Mario de Andrade, mais uma vez me senti assim. Como se fosse a primeira vez, ouvindo falar de Clarice, pensando em seu conto mais conhecido, estabelecendo relações com as leituras recentes. Enid e Alfred, personagens de Correções, de Franzen; a mulher de Federico Mayol, de Viagem Vertical, de Vila-Matas; e até  com a nossa Capitu, de Machado de Assis. Ela, generosa, permite ao leitor tecer suas próprias interpretações... pobre leitor ingênuo! Quantas armadilhas generosas... Como o último parágrafo do conto:

"E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia." 

 
Com a sua última armadilha... "como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia"

Aqui, entre outros,  está o texto integral:  http://www.releituras.com/clispector_menu.asp

Até mais,

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Viajando para comemorar 18 anos


A comemoração de dezoito anos era especial. Fui com uma amiga para Salvador. Salvador aos dezoito anos... ficar em Albergue, assistir Gilberto Gil em um cirquinho na praia, quase parar na delegacia porque a turma fez muito barulho no ônibus, voltando do show; ir a todos os museus e igrejas... todos os que o professor de literatura tinha mostrado em sala de aula, chorar na São Francisco, amarrar fitinha no braço. Apaixonar-me novamente por Castro Alves. Muito importante, muito especial! Mas a amiga era mais especial ainda. Inteligente, perspicaz, uma companhia alegre. Sem medo de nada. Ensinou-me a me arriscar. Quem tem uma amiga dessas, aprende muito na vida. Como se ri aos dezoito anos! Ríamos porque chovia tanto em São Paulo que quase perdemos o ônibus. Ríamos porque depois de 42 horas na estrada, ainda sentíamos o perfume da fábrica do chocolate Garoto, quando finalmente chegamos a Salvador. E ríamos do quase desastre ao comer como primeira refeição uma moqueca ao molho de dendê... e ainda por cima, almoçamos em uma lanchonete popular próximo à rodoviária. Só aos dezoitos para não ter medo de nada, nem de moqueca de rodoviária. Vimos tudo, voltamos baianas, gabrielas...  Voltei com as tralhas da viagem e as lembrancinhas , e ela...  cismou de comprar um berimbau! Claro, quem vai a Salvador tem de trazer um berimbau, não é? Uma turistada de vez em quando não faz mal a ninguém. E aquele berimbau deu o que fazer. A amiga baixinha, pequenininha, malona cheia de lembranças, tinha um berimbau que enroscava nas malas, não cabia no ônibus. O passageiro da poltrona ao lado não se aguentou e perguntou: “voltando de Salvador, é?” "Advinha?" E mais risada!" Vai aprender a tocar?" "Claro" "Gostaram da minha terra" "Nossa, demais. Vamos voltar logo" Alias, estou aqui pensando: quantas horas cuidando da preciosidade baiana? Nem me lembro mais! Não me lembro nem se a volta foi de avião ou de ônibus mesmo. O berimbau foi mais importante do que todo o resto. Será que ele existe ainda? Qualquer dia, pergunto. 


E aqui o mestre:

http://www.youtube.com/watch?v=j1sok3vvsBE

Até mais,