terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Casa vazia



Casa vazia

Gosto muito do texto de Eclesiastes 3, que fala do tempo.

“Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz (...)”

Já aviso aqui, sinto necessidade de avisar, antes de continuar, que leio a Bíblia desde do tempo da faculdade de Letras. Acredito que nenhum professor de literatura que se preza, deva deixar essa leitura de lado. Não sou religiosa, sou leitora!

Minha amiga tinha uma casa cheia. Família constituída. Mãe, pai, filhas. Tudo foi se acabando rapidamente, sem que pudéssemos fazer nada. Só resta a filha mais velha. Uma querida menina. Está lutando sua luta no dia a dia vazio. Era uma casa cheia de música, risos, projetos. Problemas que existiam eram contornados ou resolvidos, conforme a generosidade de cada um. 

Nossa vida, vamos vivendo como se nunca houvesse mudança. Acreditamos na permanência, temos esperança nela.

Um dia, a casa estará vazia. Mudanças, morte. Aquilo que conhecíamos já não responde como sempre. Voltamos à noite, e, na sala, ninguém espera para o jantar. Temos de fazer o jantar para um... 

Não se trata de escolher viver só, trata-se de perceber que tudo tem um tempo.

Agora ela está só. A irmã, muito jovem, se foi. A mãe se foi e o pai resolveu, por conta própria, deixar a casa vazia. Ela está só e chorou pela primeira vez sozinha.

Eclesiaste me ensina... para tudo há um tempo. 

Espero que o tempo da solidão seja breve. Que a casa, outra casa, se erga e seja plena de projetos, sonhos, música...

Há um tempo de derribar e tempo de edificar.

Que assim seja!





sábado, 7 de janeiro de 2017

Calceteiros



Algumas palavras me acompanham...

Sou uma amante das palavras. Não que meu vocabulário seja assim um Machado de Assis ou um Castro Alves, mas, como se diz por aí, dá pro gasto!

Essa é uma delas... calceteiro.

Ela apareceu uma vez em uma lista de exercícios do uso do pronome relativo... calma gente!

Eu usei a tal lista tantas e tantas vezes, porque acreditava piamente que meus alunos, um dia, saberiam usar onde, a qual, na qual, cujo e por aí vai...
Imagino, nos meus sonhos, que alguns deles devem ter mais consciência do coitado do pronome relativo do que os demais mortais. Sonho muito... sou sonhadora.

Acontece que em um daqueles exercícios aparecia a palavra calceteiro. Era uma dessas frases feitas para os livros de exercícios... perdida no tempo, fora de contexto, meus alunos me olhavam assustados e com pena da professora tão “fora da casinha”.
Eu insistia, ainda fazia uma gracinha, dizendo que eles deviam aproveitar a oportunidade única de aprender o significado de calceteiro, pois nunca mais haviam de ouvir aquela palavra! Nunca! E acredito que nunca mesmo um só deles ouviu o termo fora da sala de aula.

Hoje, janeiro de 2017, estou numa boa, com a mãe, passeando pelas salas maravilhosas da Pinacoteca e, de repente, vejo o quadro belíssimo – Calceteiros, de 1953, obra do artista Wellington Virgolino. 

Ri um pouco, lembrei um pouco da sala de aula e contei a história para a minha mãe, que não achou muito engraçada não...

Afinal... foi uma verdadeira piada interna. 

Calceteiros... alguém aí conhece um para indicar?



  • Recomendo a leitura deliciosa de O romance das palavras, uma história etimológica e semântica, de Celso Pedro Luft, organização e supervisão, de Lya Luft.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Alô, alô... aqui é Lucas Silva e Silva, falando diretamente do mundo do lua... onde tudo pode acontecer!

Ontem, estava brincando de casinha na Corondá 35.

De repente, acordo na Heloisa Penteado, dando uma mordida no sanduíche de bife à milanesa que a D.ª Chica fez para o lanche da tarde da Maria. É domingo e nós conversamos, durante a tarde toda, sentadas perto do poço.

Olho para o lado de lá e vejo o gatinho preto no telhado da casinha da Rua Guiratinga... ele cresce e vai comigo para a Vila Gustavo.

Passo por outras casas... andando de lá para cá.
Volto para a Praça da Árvore, do outro lado da avenida.

Nesse piscar de olhos, faço vestibular, leio livros, viajo

A titia Olívia vai embora, de repente...
Tio Marcílio, tio Moacir, tia Maria... meu pai

"— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente".


Trabalho em lugares diferentes, em ocupações diferentes.

Professora, professora mestre, aposentada

Vou ao teatro!
Me apaixono por Walmor Chagas, Bibi Ferreira, Raul Cortez e Paulo Autran
Procuro um registro de voz do querido Sérgio Cardoso...

Ganho do pai a vitrola feita à mão e uns discos do Vanderlei Cardoso e do Roberto Carlos...
Me apaixono por Gianni Morandi , Tarantela, queijo parmesão!

Caso, descaso... que pouco caso essa história toda!

Tenho filhas, compro livros, bonecas, jogos...

Jogo fora o Banco Imobiliário... e compro outro!
Deixo o violão apodrecer no quintal... e compro outro!

Leio O Quinze... e compro outro!

Vou ao cinema assistir a "Liberdade para as borboletas" e "Romeu e Julieta"!
Fico na fila da Mostra Internacional...
Compro dvds repetidos...

Leio Bandeira, Drummond e Lorca!
A poesia me encanta, durante as tardes na casa da Fúlvia...

Leio.

O ritmo acelera... outro dia, brincando de casinha na rua Corandá 35 e agora...

60!





segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Não, definitivamente não é...

É muito difícil não surtar!
Nem sei, de fato, qual é a sensação do surto.
Sei que tenho passado mal de pensar e, por isso, usei o verbo surtar.

Estou sensível, estou com vontade de chorar...

Vendo o filme bobinho,
o filme de super herói
o documentário de Yogananda

Pensando nas gentes
nos livros
no poema que não existe 

Tentando viver a vida
Entender tudo
Manter a mente aberta

Caminho para frente
Não quero e não olho atrás
Led Zepellin, Gianni Morandi, Verdi
Minha trilha sonora pode ser dramática, mas a hora é essa... curto o drama
sigo a trama, sorvo tudo...

Livro leve heavy easy
Livro hard cool culto
"Livros livros a mão cheia"

Espelho negro
Espelho, espelho meu
através do espelho...

Seguindo o Coelho Branco
Preocupada com Peter Rabbit

Sem conseguir  chegar ao fim do texto
Que no fundo, no fundo...
Ceci n'est pas une pipe.
https://meritcoba.com/tag/ceci-nest-pas-une-pipe/


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

"Às vezes no silêncio da noite".

Por razões que a Razão desconhece, meu grupo de leitura acabou!

Ler em grupo é bom e perigoso.

Bom porque compartilhamos memórias, sonhos e reflexões.
Perigoso porque nos coloca em situações em que temos de ter o bom senso de ficar caladas, mas ficamos? Não, não ficamos. Primeiro porque ler nos dá mais liberdade com a palavra e nos dá o direito de pensarmos por nós mesmos. Segundo porque um grupo de pessoas que pensa e tem o poder da palavra, não está disposto a ficar calado.

... é um problema insolúvel.

Um grupo de leitura tem vida curta.

Não é possível uma convivência pacífica entre pessoas que leem.

Por isso, pensei em me unir a um grupo mais impessoal. Desses que as editoras, as bibliotecas, as casas de cultura formam para vender, formar público ou divulgar ações culturais.

Lá, em um encontro impessoal, poderia ler e falar as bobagens que quisesse, sem me preocupar com quem quer que estivesse ao lado.

Procurei, procurei mesmo... mas, e as discussões? E as opiniões divergentes, os cafezinhos, os bate bocas e os olhares de esgueira - tão significativos! Onde estariam?

Não, acho que não quero algo assim tão impessoal.

Quero um grupo que vá se formando, aos poucos. Cada um trazendo sua contribuição... gente nova e cheia de vontade de compartilhar.

Ou talvez, como tenho me sentido e querido, ultimamente, fico comigo mesma.

Afinal, quem tem de me aguentar sou eu mesma... minha maneira pretensiosa de ser, minha vontade de sonhar com viagens mirabolantes no trem do impressionismo francês, minha boca calada, meu riso, meu humor, bom e mal... meu jeito de ler e minhas vontades.

Egoísta! Egoísta? Egoísta...

...um grupo de leitura feito de livros que escolho, leio e divido comigo mesma!

É isso, e não me venham com churumelas!






quinta-feira, 26 de maio de 2016

Eu nunca usei capelo



Eu nunca usei capelo. 

Minha passagem pela universidade não foi uma formalidade, foi divertida e formadora.
Frequentei as bibliotecas com curiosidade; escapava para o anfiteatro para acompanhar ao ensaio da orquestra, dirigida por Camargo Guarnieri; dava um vácuo em algumas aulas para ouvir Zubin Mehta, conduzindo a filarmônica de Israel; fiz quase todos os cursos de julho. Não perdia uma palestra. Lembro de cada uma das aulas de literatura. Sofri no Latim. Tive aula com Boris Schnaiderman, Décio de Almeida Prado, Alfredo Bosi e outros professores de quem ainda ouço o tom de voz inesquecível!

Eu nunca usei capelo.

Da universidade, fui direto para a sala de aula, mudando a perspectiva, olhando da lousa para as carteiras... olhei meus alunos e fomos nos divertir juntos. Nos seminários de literatura, nos festivais de teatro, com Lima Barreto e Machado de Assis. Ríamos nas aulas de redação, elaborando textos mirabolantes.

Eu nunca usei capelo.

Com as alunas e alunos da universidade, continuei a rir em aulas de Literatura Infantil ou com as nossas reações nas leituras compartilhadas de Guimarães e João Ubaldo. Ri com outros colegas que me acolheram em projeto deliciosos.

Acredito na formação séria, por isso escolhi com quem rir, como rir, porque rir...
Hoje, quando vejo o escárnio, o sarcasmo, quando tripudiar a educação – e falo aqui, especificamente, da última ópera bufa no ministério da educação – está ganhando força e que quase todos envolvidos usam capelo, sinto que, para o meu riso, não há mais espaço. 

Saí do jogo, jogo a toalha, entrego os pontos!

Firmes aí, amigos que ainda sabem rir, continuem e soltem uma sonora gargalhada para que eu possa continuar ouvindo daqui...

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Saber...



O velho que caminha à minha frente, no metrô, não sabe.
A mãe que comprou aquele ursinho de quinta categoria nas Lojas Mel, feliz pois poderia oferecer o regalo para a filha na época do Natal, não sabe
A barraqueira na fila do açougue não sabe
No ônibus, sobem dois moços... jovens, já um pouco carecas,  acima do peso, peso ganho com uma alimentação rápida, suja e gordurosa. A gravata feia e mal ajambrada, eles falam a respeito do dia a dia medonho e mesquinho, da meta a ser alcançada... eles não sabem.
A solitária do prédio ao lado, fala alemão, come comida natural, já viveu fora do país e voltou porque ama a família... ela não sabe.
Ele leu e não sabe
Ela viveu e não sabe
Eu também não sei quase nada... quase nada.
Olho e escuto todos eles, trágicos na sua ignorância de quem recolhe o pinhão no Bosque do Silêncio, para garantir o pão na mesa.
Olho e procuro escutar, naquela sala de espera da AMA... olho e quero entender como vivem aqueles que não sabem e nunca terão o direito de saber.
Como vivem, viveram e como será o futuro dos que não sabem e dos que sabem e querem que ninguém mais saiba.
O ano novo vai chegar... e ninguém quer saber.
A única coisa que importa é que não saibam...
Não saibam nunca... não devem nem procurar saber.
É podre, causa esgar...
Quase não se dorme, depois de saber...
Ou... dorme-se muito bem, dependendo que quem saiba!