terça-feira, 31 de maio de 2022

Tombo, Covid, Carro, Chuva, ressonância magnética...gente!

 Lembro de uma musiquinha daquele programa épico Vila Sésamo, ( só de ler os créditos, já dá uma coisa ) da década de deixa prá lá.

"Tô com raiva, muita, muita raiva... raiva."  ( clique aí, você não vai se arrepender )

Lembro porque tive raiva, raiva, muita raiva os últimos dias.

Do tombo que levei e que machucou a mão. Da Covid, que, insidiosa, chegou porque sim "todos vamos pegar" e sim, porque as pessoas são estúpidas o bastante para engolir os lugares comuns. Do carro, que eu dirijo bem mais ou menos, e vai ter de ter o espelhinho trocado, a lateral polida e tenho de lidar com isso e não gosto. Da chuva, que devemos amar, porque é prasenteira, que cai nas vidas abandonadas desse país. Raiva do exame que tive de fazer. Raiva de gente que segue ingênua ( ou não ), quando já deveria ter aprendido alguma coisa nessa vida.

Tô com raiva, muita, muita raiva...

Mas, vai passar.

Eu sou uma pessoa, acima de tudo, que sente e espera a raiva passar. Não alimento. Prefiro rir.

Rio com a leitura, com os amigos, com os parentes, com a TV, com o cachorro que passa, com a minha mãe ( que sabe rir, como ninguém, da vida que tentou passar a perna nela o tempo todo ).

A raiva é um sentimento que explode em mim, porém não sou uma raivosa violenta. Sou mais uma raivosa indignada. 

Ando indignada e com raiva.

No entanto, há momentos de riso frouxo e lágrimas emocionadas. 

É isso...

VIVER DÓI - FABIANE LANGONA



terça-feira, 29 de março de 2022

"Não estou aqui para sempre, mas só por alguns anos!", in Escritos da Casa Morta, Fiódor Dostoiévski.

 Inicio, na página 198 da minha edição da editora 34 de 2020, a leitura do excerto final da primeira parte, em que o narrador descreverá a noite de teatro do presídio na Sibéria, já sabendo de antemão que será especial.

Magnífica!

O teatro humaniza e eu amo teatro. Sempre amei, desde aquela primeira vez em que entrei, junto com os colegas de classe do antigo ginasial, em uma sala de espetáculo.

Como professora, vi, tantas vezes, a prática teatral energizar meus alunos, deixá-los felizes, orgulhosos de si mesmos. No ensino fundamental em Diadema, no colegial da Penha ou no ensino superior, sempre uma alegria.

Por isso, também por isso, esse trecho dos Escritos reafirma para mim que mais do que mágico, é um presente dos deuses que reanima nossa humanidade.

No teatro, na cena teatral, há esperança, reflexão, riso, sonho e realidade. 

"Bastou que deixassem aqueles pobres homens viver um pouco a seu modo, divertir-se como gente, viver ao menos por uma hora fora das normas do presídio - e o homem experimenta uma mudança moral, ainda que seja por apenas algunos minutos.."

Quantas vezes, senti em mim mesma essa mudança moral que o espetáculo teatral provoca.

Palco, atores, cenários, música, figurinos, reunidos por um encanto que a arte conjura, nos envolvem e animam.

Nesses dois últimos anos, sentimos falta de muita coisa, de muitas pessoas. A falta de ir ao teatro, do ritual de ir ao teatro é uma das que dói muito.

Falamos, entre amigas, de como será lindo, quando pudermos nos reunir na platéia, juntas, para celebrar o teatro. Escolher a peça, comprar o ingresso, entrar na sala de espera, buscar o programa, observar o público que vai chegando, com os olhares ansiosos; esperar o sinal, sentir as luzes apagarem completamente e no escuro esperar a primeira fala, a primeira entrada da personagem que nos conduzirá por uma história, com a qual dialogaremos ao longo daquela representação. E sair, para o cafezinho, assombradas, querendo falar tudo e não conseguindo expressar quase nada. É preciso de um tempo para que tudo aquilo que se constituiu no palco, se concretize em nossas almas.

Amo essa sensação!

Hoje mesmo, 29 de março de 2022, segundo ano da Covid, comemoro, virtualmente, o aniversário do amigo ator e diretor Samir Signeu. Fico muito alegre de poder parabenizá-lo.

Estamos atuando, como coadjuvantes, uma cena muito pesada. 

Mas...

Tenho esperança em muitas pessoas e muitas ideias.

Tenho esperança. Na literatura. No teatro. Na amizade que congrega esse amor.

E nesses dias sombrios, de tanta iniquidade, abandono, perfídia, penso e digo como Fiódor Dostoiévski:

"Não estou aqui para sempre, mas só por alguns anos!"

É isso







quarta-feira, 23 de março de 2022

Minha amiga Val.

 Este não é um texto bonitinho, que vai homenagear a amiga Val.

Este não é um texto de saudades, que vai lembrar como conheci a amiga Val.

Este não é um texto esperançoso, que vai dizer sobre a amizade bonita e sorridente com a amiga Val.

Este texto vai contar como a amiga Val está indignada.

Ela está indignada porque é professora, leitora, mãe e filha.

Está indignada porque é cidadã, paulistana de chegada, nordestina de nascença.

Indignada porque é moradorada de uma periferia que não acredita que é periferia.

... porque namora a quebrada e sabe que lá a esperança resiste e deveria ser assim em toda a parte.

E porque sabe que não pode confiar. 

Que gostaria de confiar, mas não pode.

Gostaria de confiar, mas não há em quem confiar.

Confiar é um ato forte e a amiga Val está quase sem forças. 

A indignação é pesada e dói.

Como tem resistido minha amiga Val?

Ela é forte como uma mulher. Ri muito como uma mulher da porra que é!

Como quando nos conhecemos e tivemos de descer a serra até Paraty, numa van por uma estrada que nem era estrada mais. 

Ela resiste, vociferando.

Ela vocifera rindo, resmunga rindo, xinga e fala palavrões, deliciosamente, rindo. 

Não é só isso. Vocifera, ri, xinga e fala palavrão, enquanto vive plenamente.

Adoro nossos encontros virtuais, presenciais, oníricos, transcendentais.

Ela me anima, recitando seu poema predileto do dia. 

Me anima, indicando o autor novo que conheceu outro dia.

Me anima, ficando amiga das minhas amigas, virtuais. E com sua força, ela transforma as amigas virtuais em amigas de carne e osso.

Viva minha amiga Val.

Viva minha amiga Valderina Silveira, professora, leitora, namorada, filha, mãe!

Esse não era um texto um texto bonitinho, saudoso ou esperançoso, mas a Val tem essa força.

Ela transforma tudo o que toca.



É isso!

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Inspiração

"... a percepção do sublime deve ser considerada como a origem das atividades criativas do homem, na arte, no pensamento e na nobre maneira de viver."

" A medida em que a civilização progride, a percepção do maravilhamento declina. Tal declínio é um sintoma alarmante de nosso estado de espírito. A humanidade não morrerá por falta de informação; e sim por falta de apreciação. O início de nossa felicidade baseia-se em entender que a vida sem maravilhamento não vale a pena ser vivida. O que falta não é a vontade de acreditar e sim a vontade de admirar."

    ( A. J. Heschel, in O último dos profetas - uma introdução ao pensamento de A. J. Heschel )

Esta noite, li um dos ensaios do livro que citei. Como, às vezes, acontece, eu resolvi tomar umas notas. São lembranças, percepções, bem aleatórias que tenho, enquanto leio. Quase que para provar mim mesma que eu li de verdade. Tão de verdade, que até refleti a respeito do assunto. Aqui vão três pequenos trechos. Amigos, são inspirações... não levem muito a sério.

I- Eu costumava dizer que ainda me espantava "discar um numero" e falar com uma pessoa que estava do outro lado fio. E nem era tão menina assim...

II- Maria Carolina de Jesus e Clarice Lispector são vizinhas no IMS-Paulista e isso é sublime. É o que a palavra constrói. Encontros de vida que, normalmente, nunca se cruzariam. Viva a sublime criação literária.

III - Me sento, com minha mãe, na praça, para um café ou não. Paramos para ela descansar e ficamos olhando "a banda passar". Eu me maravilho com as pessoas. São tão diferentes uma das outras. 

Às vezes, tem ares estúpidos, não sabem bem porquê estão ali, atravessando a rua, com o celular à mão, sem nenhum cuidado, sem perceber o perigo da existência. 

Às vezes, tem ares cansados, como a senhora na cadeira de roda, cabelos brancos, costas curvadas, mão esquecida. A cuidadora olha o celular, enquanto ela vive aqueles momentos de sol e vento ameno.

Às vezes, os ares são de bondoso e triste passeio de um do homem que vinha sempre com dois cachorrinhos simpáticos e agora entra na praça só com um deles.

Às vezes, o passeio solitário da japonesa solitária, que antes eram duas, não é triste como eu esperaria ser. É pleno de vida.

Às vezes, só o sorriso e a bala que adoça a tarde, oferta da jornaleira já é o maravilhamento!

São rostos maravilhosos que passeiam e vivem nos arredores da praça, entre as árvores sobreviventes. As que,arrancadas, choram pela impossibilidade de continuarem sublimes.



quinta-feira, 18 de novembro de 2021

A menina daqui.

Poderia ser a menina de lá, de Guimarães Rosa.

Poderia ser a menina-amante com seu livro, de Clarice Lispector.

Poderia ser a menina Virgínia, em Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles

Poderia ser a Clarissa, de Erico Veríssimo.

Até a Narizinho, de Monteiro Lobato ela poderia ter sido.

Mas não foi, não é, não será.

Só um único traço linguistico resgatou a menina que havia nela.

-inho.

Docinho, paizinho, bonequinho, bonitinho, "pequeninha"?

Nada disso.

Rabinho

Nem rabicó, nem rabicho.

Rabinho

Vulgar, duro, cruel.

O traço marcado a dinheiro, abandono, crueldade de uma infância vilipendiada, humilhada e ofendida. 

Lemos juntas, ontem, o conto que abre o livro Anos de Chumbo, de Chico Buarque. 

Não a adianta querer mais Chico, ditadura militar ou um pouco de Machado de Assis.

O que ele nos dá é uma narrativa dura. Dói e quase não dói de tão dolorida. Como aquelas dores que, de tão profundas, deixam de ser sentidas.

Fala a menina daqui, a menina que ainda tem um prosódia infantil, na repetição de fórmulas narrativas típicas das menininhas, a menina deslumbrada com o lanche do mac, a coca gelada, o biquini amarelinho tão pequenininho, a série de tv.

Fala a menina absolutamente normalizada no abandono, na zona do meretrício infantil em que muitas meninas são jogadas nessa patria amada.

É um conto. Uma ficção. Só isso nos salva.

Estamos aqui em nossa sala, lendo uma ficção. Só isso nos salva.

O livro tem capa dura. Só isso nos salva.

Foi o Chico que escreveu. Só isso nos salva.

Só isso nos salva.

É isso, amigos!




domingo, 28 de março de 2021

Quincas, o cão.

Todos os amigos sabem. Tenho relido Machado, acompanhada da mãe. Ela lê no Kindle, com letras grandes, para não cansar a vista de 91 anos; eu, na minha edição Aguilar, comprada em suaves prestações mensais, na década de 80, do livreiro português que vendia de escola em escola. Dadas essas informações, digo que já estamos no Dom Casmurro. Acabamos, nesta semana, o Quincas Borba.

Das leituras compartilhadas, sempre vem um conversa ao telefone, às vezes, rápida, emocionada, reflexiva. Para ela, no calor da hora, as personagens são vivas, aliás, vivíssimas. A pobre Helena, vítima de uma vida de mentiras. Ela me diz: Por que não se falou toda a verdade? Por que mentir assim? Coitada, morreu de tristeza. A Sofia e o Palha foram sumamente sentenciados como falsos, sem-vergonhas, aproveitadores e outros adjetivos menos publicáveis.

A loucura do pobre Rubião e sua morte foram causas de lágrimas ao telefone. Enquanto falava do final do romance, minha mãe ficou silenciosa, de repente, senti que ela estava chorando. Imaginei a comoção das últimas linhas... o desvario, o abandono, a morte solitária;

Mas, teve um aspecto em Quincas Borba. que nos tocou de maneira especial. O próprio Quincas Borba - o cão - e sua trajetória de perda, abandono, dedicação. 

Tanto minha mãe, quanto eu sentimos a tristeza do cachorro de Rubião. Primeiro, vindo como herança, quase deixado de lado, se não fosse a cláusula de testamento. Depois, o abandono dentro da casa, esquecido, trocado pelas ilusões da sociedade. A ilusão de Rubião, ao dar ao cão, o pensamento do filósofo. Largado dentro do quarto, ao fim do romance, enquanto Rubião é levado à casa de saúde. Finalmente, o acompanhando em fuga para Barbacena. 



Quincas Borba tem uma morte triste, suja, magra...

Nós duas ficamos tocadas com a história do cão.

Essa emoção vem agora, depois de termos tido nossa própria experiência na companhia da nossa querida Sofia - a vira-lata que nos amou, durante os últimos 10 anos. 

Já escrevi a respeito dela aqui, marcando o momento triste de sua morte.

Ler o romance Quincas Borba, tem agora um aspecto a mais. Não é análise de personagens, não é a surpresa da presença do filósofo, na figura do cão. Não é só prestar atençao ao coadjuvante de Rubião, que ornamenta a narrativa. 

É o reconhecimento da presença amorosa, companheira, alegre de um cão. 

É, talvez, compreender melhor o relacionamento entre Rubião e Quincas Borba, o cão. 

É, talvez, sentir mais profundamente as tristezas do cão, Quincas Borba.





terça-feira, 22 de dezembro de 2020

O cometa de Halley e meu espaço sideral

 

Eu devia estar no terceiro ano do primário, com nove anos, quando vi meu primeiro eclipse solar. 

Tinha um negativo de filme fotográfico e mirei contra o céu, para poder ver o fenômeno. Foi divertido, lindo, compartilhado no meio da rua de terra com os amigos das casas vizinhas. Acho que foi na escola, que avisaram a hora, como ver, nos ensinaram os cuidados para não comprometer a visão.

Todos estávamos brincando com o céu, naquele dia. E ficávamos rindo, de olho se alguém ia desobedecer e olhar diretamente. Certamente, ficaria cego! Que medo!

Fascinante.

Eu tinha uma enciclopédia, comprada no portão, em suaves prestações mensais, onde lia a respeito do cometa Halley. Acho que sempre fui assim, meio fora do planeta. Lia com atenção as histórias do cometa. Como foi descoberto, quantas vezes apareceu, quando tinha sido a última vez – 1910!

Gostava de imaginar que eu mesma o veria, de verdade. O cometa. Seria jovem, teria uma luneta, marcaria minha existência, com sua magnífica aparição.



 Lembro-me da crônica de Drummond, falando a respeito do cometa. Como tudo era possível e maravilhoso.

Vocês sabem. O cometa veio, passou por aqui, mas não deu bola para ninguém. Não vimos nada, nós aqui do Brasil. A luneta? Eu tinha uma sim... não sei que fim deu. Depois de ficar esquecida numa gaveta cheia de traquitanas, deve ter ficado triste e resolveu sumir.

Isso tudo veio à memória, quando, ontem, me peguei abrindo o Youtube à procura de imagens da tal conjunção de planetas. Meio que sem pensar, queria ver a Estrela de Belém. Acho que foi a menina em mim...

Uns sites mais felizes, em que moços cientistas, conversavam a respeito de astronomia, do mundo antigo magnífico, do mundo moderno pleno de possibilidades.

Outros mantinham aquela imagem dos planetas se exibindo aos telescópios do mundo todo.


Imagens não mais de enciclopédias de seis volumes, mas de telas midiáticas, plataformas sociais.

Fui ficando triste, meninamente triste.

Depois, quando comecei a refletir, vi que bobagem era essa esperança. O céu paulistano, sempre tão lindo nos últimos dias, estava nublado.

Tudo está nublado.

É isso que temos de observar, afinal.

Então, resolvi assistir a mais um episódio de Deep Space Nine. Lá, pelo menos, o Domínio está sendo combatido.